O conceito de TRADICIONAL reproduzido e produzido culturalmente na aprendizagem de formação do pedagogo em universidades baianas. Breve reflexão.

 

O conceito de TRADICIONAL reproduzido e produzido culturalmente na aprendizagem de formação do pedagogo em universidades baianas.

Breve reflexão.

 

Cora Corinta Macedo de Oliveira[1]

 

 

Resumo

 

A problematização do conceito de tradicional está oportunizada pela atuação da pesquisadora e autora deste ensaio na formação de pedagogos e também pela condição de estudante da licenciatura em pedagogia. Uma vez atuando na formação de pedagogos nos últimos oito anos, sempre lhe causou estranheza à reprodução literal por estudantes do conceito de “pedagogia tradicional” e/ou “educação tradicional” e estes dois como sinônimos. Uma reprodução que, supostamente, instiga a produção cultural de uma ideologia que entende o tradicional como algo pejorativo, menor e irremediavelmente passível de superação; tal prerrogativa é sugestiva de uma relação de alienação, pois ao se negar a dita “Educação Tradicional” caminha-se para afirma-la em seu caráter cientifico. Ou seja, o que a “Educação” tem entre nós de mais tradicional é o que herdamos da sua perspectiva cientifica. Da “Pedagogia Tradicional” poderíamos indagar se neste caso se trata de entendê-la como conservadora? Uma pedagogia que abusa da autoridade docente e termina por estabelecer uma relação de autoritarismo na reprodução de conceitos, em particular – científicos? Nisto, o presente ensaio se propõe apresentar uma breve reflexão sobre o conceito de TRADICIONAL reivindicando outras leituras para sua abordagem na formação profissional do pedagogo.

Palavras chave: educação bancária; a crise na educação; escola das series iniciais

 

 

 

 

 

Introdução

O presente ensaio se propõe apresentar uma breve reflexão sobre o uso do conceito de tradicional na formação acadêmica do profissional pedagogo. Para tanto a autora recorrerá a sua atuação como docente no curso de Pedagogia desde 2004 e também da sua decisão adotada em 2010 de retornar a condição de estudante realizando uma licenciatura em pedagogia. Assim dito se esclarece que a pesquisa se assume em tom etnográfico na medida em que descreve experiências vividas no contato, tanto de docente como de discente, com o discurso pedagógico localizando-o na reprodução categórica do conceito de “educação tradicional” e “pedagogia tradicional”.

O que é "tradicional" no discurso de formação em pedagogia? Relaciona-se com o conceito de tradição? Partido do vivido com o uso destes conceitos, numa relação alheia a formação em pedagogia, identificamos sua utilização, por exemplo, pela antropologia quando denomina populações tradicionais referindo-se aos remanescentes indígenas e quilombolas nos seus pressupostos culturais demarcando daí a sua presença no marco civilizatório em especial nas suas descendências no Brasil. A antropóloga Manuel Carneiro da Cunha usa não somente o conceito de populações tradicionais como também o conceito de:saberes tradicionais quando se refere a populações indígenas. (CUNHA, 2002, 2003)

Também no discurso artístico o conceito de tradicional assume um sentido afirmativo importante na reprodução às gerações futuras, como indica o refrão de um samba popular brasileiro produzido em 1973 por Armando Fernandes:“ Vai manter a tradição/Vai meu bloco tristeza e pé no chão. ” Interpretado pela cantora Clara Nunes.

O samba é uma tradição brasileira herdada desde matrizes de civilizações africanas, e as escolas de samba por vez não têm nada que ver com o sentido profissional na formação do pedagogo o que não nos impede aqui de entendê-la como uma pedagogia tradicional de povos afro descendentes, quando materializa, por exemplo, o espaço escolar da escola de samba. E não menos o samba, ainda que numa versão moderna, (moderno se opondo a tradicional) mantém a percussão como elemento tradicional básico seduzindo, entre outros povos, os catalães que durante o carnaval num frio de 5 graus fazem um desfile pelas ruas da cidade de Barcelona nutrindo por suposto o afã de carregar expectadores para cumpliciar e apreciar sua manifestação artística. Vestidos em camisas de cor amarela e atrás, escrito em catalão – PERCUSSIÒ. Batendo tambores alusivos de grupos do afroreggae ou samba reggae baianos.

O futebol por vez é descendente de uma tradição ocidental importada de países nórdicos, isto dito, se não for um equivoco, na referencia das informações que atualmente são veiculadas na novela denominada de “Lado a Lado” da Rede Globo e apresentada no horário das 18h. Entretanto o brasileiro conseguiu dobrá-lo e conquistá-lo se apropriando de uma linguagem inusitada na peleja com a bola nos pés. De tal maneira que formou uma escola internacional, responsável pela exportação de craques para times mais importantes do mundo futebolístico, a exemplo do Barcelona. E daí afirmarmos que constituímos uma tradição futebolística, com honrosa expressão no seu museu na cidade de São Paulo no Pacaembu-http://www.museudofutebol.org.br/

Há uma citação do antropólogo Darcy Ribeiro,que a localizamos quando do seu uso por colegas pedagogos em homenagem ao dia da consciência negra; nela há um conteúdo de deleite às populações negras brasileiras.

 “... o negro urbano veio a ser o que há de mais vigoroso e belo na cultura popular brasileira. Com base nela é que se estrutura nosso Carnaval, o culto de Iemanjá, a capoeira e inumeráveis manifestações culturais. Mas o negro aproveita cada oportunidade que lhe é dada para expressar seu valor. Isso ocorre em todos os campos em que não se exige escolaridade. É o caso da música popular, do futebol e de numerosas formas visíveis de competição e de expressão.” (RIBEIRO, 1995)

No Brasil descendemos de uma dada perspectiva intelectual que desde 1930 priorizou o estudo sobre a nossa identidade, - o que é ser brasileiro? Se não nos equivocamos o antropólogo Darcy Ribeiro entende que a matriz civilizatória brasileira é a ocidental. Ou seja, sereconhece a participação de populações indígenas e africanas (esta última em destaque pelo autor na citação acima), como culturas que contribuíram e contribuirão para a civilização ocidental sinônimo da civilização brasileira, e não reconhecendo em tais populações um potencial civilizatório. Uma passagem pelo http://facebook.comé possível encontrar mensagens de palavras enunciativas de ordem reivindicativa da presença civilizatória de populações indígenas americanas e afirmando a condição ancestral religiosa afro descendente desde suas matrizes civilizatórias no Brasil. Não menos a escola básica brasileira hegemonicamente tem reproduzido a educação ocidental cuja tradição entre nós afirma uma perspectiva do raciocínio lógico, da razão e de um conceito de verdade pautado no conhecimento cientifico.

O não reconhecimento do caráter civilizatório herdado entre nós desde povos africanos e povos indígenas interfere na apropriação pela criança da cultura escolar da palavra escrita? Quando se diz “Educação tradicional” quais saberes o conceito enseja? Quando se despreza a “Pedagogia Tradicional” ela assume daí uma relação dicotômica com uma “Pedagogia Moderna”? No sentido de um mundo que nos chegou como tradicional e segue sendo e assumiu e assume aqui e ali um caráter moderno? Distante do movimento de buscar empreender respostas a todas estas questões, seguiremos tentando enunciar um discurso sobre a reprodução do dito tradicional na formação do pedagogo.

A reprodução do conceito de TRADICIONAL na aprendizagem de formação do profissional pedagogo

Como dizíamos inicialmente, desde a condição de docente e também discente da formação universitária em licenciatura de pedagogia da autora deste ensaio, - a reprodução do conceito de tradicional lhe chegou com estranheza. A familiaridade que nutria com este conceito desde o espaço público – ou da leitura da palavra mundana, parodiando o tom freireano, não se conciliava por um lado com a lógica de leitura do conceito de tradicional nos espaços pedagógicos da sua convivência. Se o tradicional sempre nós chegou como algo positivo, algo particular da pertença de determinados povos; por outro lado ele não se conciliava com a relação do sentido da escola entre nós. A escolaridade enquanto um sinônimo de educação é nutrido por nós como um lugar tradicional positivo de pertença à cultura ocidental que se afirmou e se legitimou demarcando o lugar da escola como uma instituição insuperável. Qualquer voz contrária a sua presença como o encenado por Ivan Illich na sua proposta de uma “Sociedade sem escolas” (1977) não ecoaria por certo favorável à aclamação.

            O que entendemos desde aí, do conceito de educação tradicional dirá respeito ao que significa o modelo de aprendizagem – a categoria de racionalidade, de disciplinamento e de abstração para se relacionar com informações de características cientificas. Se há algo de tradicional na educação que herdamos do ocidente por certo está circunscrito em seu caráter cientifico, ou, bem mais - a escolaridade como o lugar da reprodução do conhecimento científico, dito desde o pressuposto de que a produção do conhecimento científico é uma pratica inexistente nas escolas publicas das series iniciais baianas. Nisto um olhar de soslaio indica que sua reprodução é hegemônica, a ponto de negligenciarmos a perspectiva de outras formas de produzir conhecimento, como o caminho da arte.[2]

            Podíamos até parodiar tal sentido tradicional indicando que quanto mais ela acontece na vida do individuo – ou seja, quanto mais o individuo ascende verticalmente na carreira escolar, - mestrado, doutorado, maior culturalização ele adquire na educação tradicional, na cultura ocidental – mais cientifico seu discurso se torna e “branco” ele se personaliza. E o entendimento do cursar na escola tem este tom – o de se apropriar de uma dada cultura ocidental tradicional, entre nós.

“O texto “O currículo dos Urubus” extraído da obra de Rubem Alves “Estórias para quem gosta de ensinar” faz uma alusão a vários fatos dentro da história da educação tal como o tecnicismo. No texto fica claro que os urubus atribuíram ao conhecimento cientifico e a técnica o poder de remir a sociedade por meio da educação, ou seja, a educação deveria ser pautada na técnica e no conhecimento cientifico para que assim pudesse transformar todos em “urubus”, que no texto retrata a classe social mais “evoluída” possuidora dos valores mais “nobres”.” (http://pt.scribd.com/doc/56428866/Curriculo-Dos-Urubus )

Não obstante se costuma reduzir o conceito de tradicional quando se discute o conceito de educação e de pratica pedagógica como algo menor, pejorativo e mesmo irremediavelmente superável, e esquecemos que a educação escolar que desfrutamos entre nós está demarcada pelo positivo – tradicional,da cultura ocidental herdada desde a colonização do país e do caráter etnocêntrico próprio dos povos portugueses que aqui chegaram para se apropriarem de terras indígenas.

Uma rápida passagem pelo Google na Internet, presenciamos a utilização do conceito de “Educação Tradicional” sugestivo de uma superação, como algo que desejamos negar (desde os sites indicados nas referencias). E não se percebe nenhum esforço para refletir sobre o conceito freireano quando coerentemente denomina-o de Educação Bancária. (FREIRE, 1975) Permitindo daí fazermos uma apologia à Escola, a sua presença entre nós e aportando possibilidades de avançarmos para além do seu caráter conservador, ou bancário. E percebemos, salvo engano, que Freire em sua literatura de construção do conceito de educação bancária não a utiliza na relação com o conceito de tradicional. Ele irá dicotomizar a educação bancária, com o conceito de Educação Libertária.

Paradoxalmente, na formação em pedagogia a reprodução da tal “educação tradicional” e mesmo a “pedagogia tradicional” não é reconhecida como CONSERVADORA, que seria, talvez, o conceito hostil mais oportuno para operacionalizar o sentimento de desdém, ou de resignação a sua efetiva presença demarcando as relações escolares na educação brasileira. E repetimos: o dizer tradição e tradicional é corriqueiramente utilizado pelas ciências humanas como algo positivo, algo da pertença do outro que merece respeito e compreensão, neste caso, a herança ocidental europeia – a pertença à escola tradicional que vingou e veio pra ficar.E nisto do tentarmos passar do que ela tem de significado CONSERVADOR, autoritário no uso da autoridade pedagógica, e na reprodução do conhecimento cientifico terminamos por sabotar o que há nela de tradicional, para a formação profissional do pedagogo a reflexão de dois componentes – um já citado anteriormente – seu caráter de reconhecer hegemonicamente a produção do conhecimento via a ciência ocidental e a autoridade docente , conceito enfatizado no texto intitulado A crise na educação da filosofa Hannah Arendt.

 

O conceito de educação conservadora em Hannah Arendt

A literatura de Hannah Arendt a propósito do seu artigo intitulado A crise na Educação 1955, desde a leitura de acadêmicos brasileiros irá qualificar o estranhamento da autora deste ensaio ao presenciar a reprodução entre pedagogos e entre estudantes de pedagogia de um dado conceito de pedagogia tradicional e educação tradicional, e nos encaminhar para uma opção distinta da reprodução entre pedagogos do conceito de tradicional.

Da leitura do texto arendtiano A crise na educação, ela qualifica a educação como conservadora ou ressalta seu caráter conservador, esse por suposto, como um mal necessário a pratica escolar. Entendemos ainda que Hannah vá problematizar como conservador o perfil etnocêntrico que o discurso educacional possa reservar na tradução dos conhecimentos escolares. E também seu caráter desigual uma vez que nas relações escolares está pautada a presença da autoridade do professor.  A autoridade escolar na sala de aula, ou a autoridade de professor como um poder que lhe confere um lugar de submissão, uma hierarquia a ser superada pelo aluno. O que Hannah não irá entender é o porquê de nos países americanos (em destaque para os Estados Unidos) se estabelecer com a escola a convenção de tê-la como uma representação do conceito (sinônimo) de espaço público, como uma palavra em si que possa qualificar o mundo, em vez de receber a partir do alunado o mundo para discuti-lo. (CARVALHO, 1972)O mundo que se faz para uma apresentação no espaço da escola está contido, se não nos equivocamos, no que Freire irá identificar como a leitura de mundo. (FREIRE 1986)

Embora o conceito de leitura de mundo se utilize para uma pedagogia com adultos nós a entendemos, completamente, pertinente a uma prática pedagógica na escola das series iniciais. Ou seja, tal iniciação não estaria posta para o exercício pedagógico de “formar cidadãos”[3],como uma tarefa direcionada para o futuro, e nela a criança como um projeto para o futuro. Tal postura se supõe a negação do seu momento. Um momento que estará posto na ordem social da sua pertença a esta ou aquela tradição cultural na sua leitura de mundo e na sua condição de natalidade.

Temos, por suposto, em sentido velado uma crise de identidade na sociedade brasileira distanciada do reconhecimento civilizatório de populações tradicionais de caráter africano e indígena que segue a deriva de um reconhecimento pedagógico a despeito de tentativas legais para sua socialização na sociedade brasileira. A ponto de seguirmos hegemonicamente reproduzindo o conceito de “Educação tradicional” e “Pedagogia tradicional” na formação daqueles que estarão de fato e de direito se relacionando com crianças nativas por suposto de populações tradicionais indígenas ou africanas e mestiças para tanto em sua iniciação escolar, sem atentarmos para o possível significado da sua produção cultural – uma ideologia que pode identificar o tradicional pertencente ao Outro – o aluno pobre da escola publica das series iniciais – como FOLCLORE (OLIVEIRA, 2011).

Nisto é inegável que haja uma crise de identidade histórica na sociedade brasileira (refletida na escola básica e nos altos índices de criminalidade com atuação de adolescentes) a qual tem suas repercussões no sistema escolar público, em particular, e emperra a discussão sobre o perfil do docente que atua nas escolas públicas das series iniciais no desdobramento de suas praticas pedagógicas. E:

“Referimo-nos à oportunidade, fornecida pela própria crise — a qual tem sempre como efeito fazer cair máscaras e destruir pressupostos — de explorar e investigar tudo aquilo que ficou descoberto na essência do problema, essência que, na educação, é a natalidade, o facto de os seres humanos nascerem no mundo. O desaparecimento dos pressupostos significa simplesmente que se perderam as respostas que vulgarmente se aceitam sem sequer nos apercebermos de que, na sua origem, essas respostas eram respostas a questões. Ora, a crise força-nos a regressar às próprias questões e exigem de nós respostas novas ou antigas, mas, em qualquer caso, respostas sob a forma de juízos diretos. Uma crise só se torna desastrosa quando lhe pretendemos responder com ideias feitas, quer dizer, com preconceitos. Atitude que não apenas agudiza a crise como faz perder a experiência da realidade e a oportunidade de reflexão que a crise proporciona.” (ARENDT, 1957)

 

 E valendo questionar se os altos índices de criminalidade de norte a sul do país, incluindo como vitima e autores - adolescentes, não seria sugestivo de uma crise social entre nós?

 

Considerações Finais

 

“A educação é também o lugar em que se decide se se amam suficientemente as nossas crianças para não as expulsar do nosso mundo deixando-as entregues a si próprias, para não lhes retirar a possibilidade de realizar qualquer coisa de novo, qualquer coisa que não tínhamos previsto, para, ao invés, antecipadamente as preparar para a tarefa de renovação de um mundo comum.”

 Hannah Arendt

 

 Na discussão da “crise social” e sua extensão no sistema educacional brasileiro, destacaríamos a importância de ressaltarmos a condução de questões identitárias das populações tradicionais: afro- índio- descendentes, por um lado no seu “direito” ao acesso a escola pública das series iniciais e por outro aos conteúdos, do livro didático e da própria reprodução de ideologias preconceituosas na pratica pedagógica. Tais reivindicações vêm sendo encaminhadas por nós quando, por exemplo, questionamos aos professores das series iniciais aqueles que têm filhos nesta idade escolar, sobre o porquê dos seus filhos não frequentar a mesma escola pública aonde atuam e mesmo o porquê de seus filhos estarem em escolas particulares?  E, se “eu”, enquanto professora das series iniciais de escolas públicas jamais colocaria meus filhos nesta escola ou em outra escola pública, quem é aquela criança que eu sou responsável para iniciá-la na cultura escolar? Uma criança que por suposto nunca poderá ser ou estar na condição escolar do meu filho? Ou, o meu filho, que nunca será aquele que estuda nas escolas publica das series iniciais está longe de uma pertença na condição de um afro índio descendente? Como se relaciona o professor, o profissional pedagogo com o mundo, com o espaço público de pertença daquela criança que nunca será o seu filho, mas que está repetimos, sob sua tutela profissional pedagógica para ser acolhido e iniciado na leitura e na escrita da cultura escrita e impressa primeiramente no livro didático cujos conteúdos podem estar distanciados do mundo dela – da criança e de suas tradições? (OLIVEIRA, 2009)O que tem de pertença às populações tradicionais na representação de crianças escolares que lhes torna arraigadas a um mundo que não pertence aos docentes das escolas públicas das series iniciais, e mesmo que a eles aos docentes não lhes interessa e a identifica folclorizando-a? Por exemplo, quando em comemoração ao dia do folclore identificamos as comidas de representação do candomblé, o samba de roda como exemplos de folclore!

Uma vez atuando também na formação de professores “leigos” em pedagogia para as series iniciais iremos escutar os professores estudantes ratificando a tese da desnutrição da criança que a justificando daí por vez como causa do “fracasso escolar”, sem ater-se a um posicionamento reflexivo das questões colocadas na ordem do dia para o espaço escolar público, tanto em suas condições físicas como das interações entre alunos e professores. Afirmar uma relação entre a desnutrição da criança e o seu rendimento escolar nos moldes como historicamente está negligenciada a imagem de populações pobres negras e indígenas no Brasil, significará por suposto filiar-se a uma posição entendida aqui como discriminatória ou no mínimo preconceituosa para com o Outro – a aluno pobre (negro, índio - mestiço) da escola fundamental pública na Bahia. Isto porque o discurso de desnutrido termina por reduzir a criança ao seu estomago, ou afirmá-la em uma dada condição de inferioridade cognitiva. (OLIVEIRA, 2009)

Ademais destas questões retomaríamos também uma incursão sobre a prática de comemoração do dia do folclore em escolas publicas das series iniciais baianas, quando crianças escolares são expostas para exibir seu dia a dia cultural de sua vida mundana circunstanciada no conceito de folclore que por vez tratam-no como algo que existiu remotamente ou que pode se acreditar que nunca haja existido, como, por exemplo: a capoeira, o samba de roda, o acarajé vendido por religiosos do candomblé em espaços públicos literalmente na rua.  (OLIVEIRA, 2011)

O que seria dizer folclore para além da sua conceituação intelectual (cientifica) e enciclopedista? Por exemplo, o que quereria dizer Antônio Candido em sua apresentação sobre o tema dos Caipiras no vídeo documentário produzido por Isa Grinspim Ferraz na coletânea Intérpretes do Brasil (Disco 2) em 2001-2002, quando disserta sobre o fala caipira e usa o conceito de folclorizado, como sinônimo de  deformado, para justificar seu desconforto com determinadas leituras produzidas sobre o homem caipira? Por que existe o lugar comum do qualificarmos folclore de algo bizarro, como desqualificado de sentido?  Seria pertinente tomar em observação estes sentimentos perceptivos para uma reflexão sobre o que reproduzir e produzir sobre o folclore na ordem da sua institucionalização normativa curricular? Quais foram os ideólogos e quando instituíram a composição do folclore como uma disciplina curricular efetuada no dia 22 de agosto em todas as escolas básicas? (OLIVEIRA, 2011)

Estas considerações sobre uma dada pratica pedagógica descuidada de praticar uma alteridade com seus pares o – Outro a criança pobre desprovida de referencias na cultura da palavra escrita, se relaciona a uma pratica pedagógica de caráter conservador, – provenientes da reprodução de uma educação bancária propiciada por uma ideologia de formação do pedagogo elitista e pautada tão somente na civilização ocidental e que por vez naturaliza a condição da criança da escola publica ao destinar-lhe um futuro distanciado da contingencia do se apropriar da cultura escolar. E instituímos uma pedagogia da repetência (RIBEIRO, 1991). Se afirmarmos, tão somente a tradição ocidental, ainda que em discurso de rechaço quando a identificamos como “tradicional”, como reconhecer a escola como um espaço público? E espaço da diversidade? Da tolerância e respeito com a condição iniciática da criança?  E concluindo com uma frase de Hannah, questionaríamos sobre o“...que podemos aprender com esta crise acerca da essência da educação, não no sentido em que podemos sempre aprender com os nossos erros o que não se deve fazer, mas no sentido da reflexão sobre o papel que a educação desempenha em todas as civilizações, ou seja, da obrigação que a existência de crianças coloca a todas as sociedades humanas” .

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Referencias

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro. Forense. 1987.

________. A crise na educação. 1957 http://redeantiga.unifreire.org/pedagogia-noturno/arquivos/hanna-arendt-a-crise-na-educacao.pdf

BOURDIEU, Pierre e PASSERON, Jean-Claude, "A reprodução. Elementos para uma teoria do sistema de ensino", Lisboa, 1970

CANDIDO, Antônio. Caipiras.In: Interpretes do Brasil. Isa Grinspim Ferraz. DVD Duplo. Vol. I. Documentário.

CARVALHO. Tania M. de. Educção Conservadora ou Tradicional. http://www.slideshare.net/machcarval/a-educao-tradicional-10460275

CARVALHO. José Sérgio Fonseca de. Arendt, Hannah. A crise na educação. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 221-247. 1aedição (Between past and future): 1961.http://www.google.pt/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&frm=1&source=web&cd=4&ved=0CEcQFjAD&url=http%3A%2F%2Fstoa.usp.br%2F006hugo%2Ffiles%2F-1%2F9450%2FARENDT.doc&ei=cU89UYGRFIf69gSGvYCYDQ&usg=AFQjCNErZ6OG9HtDPjTZaVUPtE9PQHkINQ

CORREIA. Jorge A. Matos. A antinomia educação tradicional - educação nova. Uma proposta de superação. http://www.ipv.pt/millenium/pce6_jmc.htm

CUNHA, Manuela Carneiro. 2001-2002Saberes. In: Interpretes do Brasil. Isa Grinspim Ferraz. DVD Duplo. Vol. I. Documentário.

_________. 2003Entrevista: Manuela Carneiro da Cunha. http://campanhaguarani.org/?p=1692

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido, 3ª ed. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1975

Paulo Freire. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas, Ed. Vozes, Petrópolis, 1977.http://home.dpe.uevora.pt/~casimiro/cppc-semana8.pdf

 

NÓVOA, Antônio. Os professores na virada do milênio: do excesso dos discursos à pobreza das práticas. 1999. Cuadernos de Pedagogia Nº 286.

 

OLIVEIRA, Cora Corinta Macedo de. O “dia do folclore” e sua concepção científica: problematização para investigação no espaço escolar. I Seminário Nacional de Política e Gestão da Educação. Universidade Federal de Sergipe. Setembro de 2011.

____________. A invenção da fome brasileira: reflexão sobre o espaço de escolarização fundamental pública no brasil. Anais do 19 EPENN, Paraíba, 2009.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995

RIBEIRO, Sergio. A pedagogia da repetencia. Estud. av. vol.5 no. 12. São Paulo Scielo. May/Aug . 1991

SILVA, Lilian Vieira da. et.al. A masculinização do currículo e a escola pública. Monografia de conclusão curso de espacialização em Politica do Planejamento Pedagógico. 2004. Campus XIII Itaberaba - Bahia. Doc. Mimeo.

 

Sites consultados

http://www.youtube.com/watch?v=e0tK3K_l6p8 Discussão entre educação Tradicional e Educação Participativa

https://www.google.pt/search?q=educa%C3%A7%C3%A3o+banc%C3%A1ria&hl=pt-BR&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=lf88UYbkKpCK8QSwyIHADg&sqi=2&ved=0CCsQsAQ&biw=1249&bih=588 Imagens da Educação Bancária

http://van-refletindoaeducacao.blogspot.com.br/2009/09/educacao-bancaria-e-educacao.html Discussão entre Educação Bancária e Educação Libertadora.

http://www.youtube.com/watch?v=an2GGL912cw Critica a Educação Bancária (Parodia ao filme Laranja Mecânica)

http://llpefil-uerj.net/oficinas/136-2007-a-crise-na-educacao-hannah-arendt Discussão sobre o texto de Hannah Arendt sobre A crise na Educação. 

http://facebook.com

www.google.com.br

http://www.youtube.com/embed/WzBcE9QsW1g Sobre currículo indicando uma leitura dele para uma “perspectiva para o mundo”.



[1]Mestre em Educação. Docente da Universidade do Estado da Bahia. Discente de Licenciatura em Pedagogia EAD Universidade de Salvador.

 

[2]Ao negligenciarmos o caminho da arte na produção do conhecimento na iniciação da criança na escola pública das series iniciais adota-se e talvez se legitime a “educação não formal” como uma opção, descaracterizando o imperativo da sua inclusão na referida escola pública.

 

 

[3] A sensação que nos chega quando escutamos o conceito, inclusive freireano de uma escola para “formar cidadãos” desde sua reprodução na formação profissional do pedagogo é de que há uma naturalização das desigualdades sociais em educação no sentido de que a escola pública das series iniciais “forma cidadãos” e que a educação (particular onde está o meu filho) “aprova doutores”.

 

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