UMA NEÓFITA RUIM DE CONVERSA



TELA PRETA 

JUREMA (O.S) NE-Ó-FI-TA! 

O antropólogo Vivaldo da costa Lima adorava repetir a palavra, no feminino e masculino: neófita. Agora estou aqui para uma iniciação, uma condição neófita em arte, arte cinematográfica e será que tenho talento pra coisa? Uma iniciação precisa de um espaço confortável, acolhedor, bonito? ou não? Como igual a uma iniciação religiosa. Sei lá... digo que sim. Essa escola que escolhi para iniciar-me parece mais uma (ou um?) cárcere. uma terra arrasada. Pois, e foi uma fábrica para produzir charutos. Eu estava certa de que havia sido uma prisão, uma cadeia. Nisso posso até ver as folhas de fumo dependuradas no teto secando, parecendo morcegos no escuro. E o funcionamento da fabrica? trabalhavam MULHERES?



1. INT.ESCOLA/EXT SALA DE AULA.DIA

FADE IN 


JUREMA

 A protagonista, uma mulher idosa, sarará, aluna do curso de cinema e audiovisual sai da sala de aula da escola universitária na cidade de Cachoeira/Bahia. A escola está toda pintada em tom cinza gelo. O espaço da escola que a abriga foi a sede de uma fabrica de charutos. Somente as /grafites e uma bandeira com do Arco Iris, conferem um movimento de cores ao tom cinza das paredes. Ela é primeira a sair da sala de aula. Sai apressada, resmungando raivosa. Caminha da porta da sala de aula até o Portão Principal de entrada/saída da Escola. A Escola esta situada no centro da cidade. Jurema para no portão principal da escola por alguns segundos e começa a falar com uma pessoa, imaginaria (ao seu lado); Fala sozinha e, alto o suficiente, de forma que quem está por perto – não pode deixar de escutá-la. A pessoa está visível somente para Jurema, - e a pessoa é JUREMINHA, - uma jovem mulher com vinte e cinco anos deidade; mestiça, com cabelos negros encaracolados não crespos; típico da mestiçagem negro e índio. Iniciam um dialogo


2.INT. ESCOLA/ PORTÃO PRINCIAL. DIA

JUREMA

 Vamos?

JUREMINHA

  Calma! Antes me diga: Que cara amarrada na preocupação é essa? O que aconteceu na aula de hoje? 

JUREMA

 O professor passou uma atividade, uma tarefa que me deixou atordoada, apavorada. 

JUREMINHA 

A tarefa é para nota? 

JUREMA 

Sim. E ele queria que a realizasse aqui, nesse famigerado espaço físico que somente tem de colorido um símbolo arquétipo de Oxumarê apropriado pelo movimento gay e as pichações que dão um movimento alternativo, fora disso mais parece uma ou um? cárcere. É essa sensação que tenho quando estou aqui dentro.

 Nesse instante um grupo de três jovens, vão entrando fazendo sentido contrário a saída do portão da escola, e uma delas uma jovem com cabelos lisos pretos, escorrido, cortada reto aos ombros, com no máximo vinte anos de idade – A ALUNA CABOCLA, interpela JUREMA indagando-a despropositada.

 ALUNA CABOCLA 

Tá falando sozinha TIA!?

 JUREMA

Pois, com quem estou falando não te interessa, me interessa mesmo saber se você está carente de parentesco por estar aliciando pessoas que não conhece nessa intimidade familiar.

 ALUNA CABOCLA

 Visse, tá louca de tudo mesmo!

 JUREMA

 Viu ai o respeito? A me princedêmica chamou de louca. É só o que a corporação de pedagogia ensina: chamar toda e qualquer pessoa, mulher em particular, de tia; na sala de aula de escolas governamentais, as crianças que estão na responsabilidade delas para o letramento, nunca que serão seus filhos, o máximo são uma tia má, pois os filhos delas estão nas escolas particulares.

 JUREMINHA

 Calma, que somente você me enxerga, não esqueça que somente você me vê. E vamo! vamo embora daqui!

 

JUREMA e JUREMINHA se dirigem para o carro, na rua em frente ao portão da escola. No caminho de carro até a residência de JUREMA a conversa é sobre a atividade escolar de construção de um diálogo.

 JUREMINHA

 Pronto... Retoma a tarefa do dialogo. Quem sabe você dirigindo brote alguma coisa na imaginação; e você já tá no lucro uma vez que pode entregá-lo na próxima aula de hoje a oito dias. A ver se posso ajudá-la.

 JUREMA

 Oxalá!

 JUREMINHA

 O diálogo é uma conversa, supostamente linear, pelo mesmo no mesmo tom de voz. Seria assim, ou como você o IMAGINA.

JUREMA 

É justamente esta a minha limitação: não consigo imaginar um diálogo; meu esforço nesse tempinho de depois da aula, até aqui, tento rememorar as conversas – com pessoas da vizinhança; com familiares; com colegas e não vinga… não rende; fica nada mais que três palavras, quiçá duas frases. 

JUREMINHA 

Então tenta imaginar um diálogo fictício. Por exemplo, você vive cantando a música de Paulinho da Viola



JUREMA 

ADOROOOO.

(cantarola)

.“Olá como vai/ eu 4. vou indo e você tudo bem/ Tudo bem eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro e você?/ Eu vou em busca de um sono tranquilo/ Quem sabe… Paulinho da Viola é o Paulinho da Viola. Ele deve lidar bem com as emoções, deve ter no mínimo a Lua no signo de Câncer. Consegue suavizar os sentimentos de dentro para fora. Será? O professor declarou que adora construir diálogos.

 

JUREMINHA 

O signo de professor é Câncer? 

JUREMA 

As pessoas que tem muita presença das águas no signo de câncer no mapa astral de nascimento são aptas a lidar com a psicologia, lidam bem com as emoções. Eu, no caso, no meu mapa as águas de câncer estão escassas, nula, acho que estou mais para a etnografia.


JUREMINHA 

Aonde você leu essas besteiras?

JUREMA 

Do professor eu sei que ele é do signo de Virgem. 

JUREMINHA (Espantada)

Você sabe o signo dele?


 JUREMA 

Antes desta iniciação, desta minha primeira experiência de imaginar e ver as imagens, do escrever vendo as imagens se processar; no semestre anterior, lá no semestre passado, estive num curso, um esquenta cineástico com dois professores, ele e outro os; bam bam bam na cátedra desta escola. Ai, aqui e ali, sabe Deus como que nem me lembro, eu e este professor de agora, que escolhi para minha iniciação, pincelamos alguns dados sobre astrologia; e aconteceu uma coisa engraçada. Tem um caramelo vendido na cantina da escola, que a 5. embalagem mostra o nome LILITH. Eu peguei dois e dei para Ele, crente achando que ele ia se distrair com o nome da embalagem; qual nada todo contrário; ele desenrolou o caramelo, a bala, o bombom que seja e acho que nem o chupou, mastigou e engoliu de vez. E nem leu o nome da embalagem...


 JUREMINHA 

Foi ai que você percebeu que ele não tava nem ai pra esse seu conhecimento astral planetoide?



As duas riram abeça.


JUREMINHA 

Já deu dessa sua saga monológica. Estamos chegando em casa. Que consiga escrever o dialogo para cumprir a tarefa e daqui a oito dias quero saber como foi a receptividade do seu intento de diálogo.

 JUREMA 

Não sei se poderei concluí-la, mas de uma coisa você me ajudou a reconhecer sobre esse conceito de dialogar em mim: EU SOU MUITO RUIM DE CONVERSA… 

JUREMA 

Desce para abrir o portão e entra sozinha em casa. Em casa ela pára na sala, observa o computador, se aproxima dele, abre a tela, e escreve nele um texto. Ao terminar imprime como uma página e meia. Lê e sorri satisfeita. Pronuncia para si o titulo empregado ao texto: MONOLOGIZANDO UM DIÁLOGO. 


3. INT. ESCOLA. DIA / EXT. SALA DE AULA JUREMA 

JUREMA sai da sala de aula, cabisbaixa, com expressão de tristeza e segue para o portão de saída da escola. Para no Portão Principal da escola. JUREMINHA SE APROXIMA DELA. Inicia uma conversa.



JUREMINHA

 Que cara tristonha e desalentada é essa? Como foi a aula de hoje? 

JUREMA

 Pois assim que cheguei a casa na aula passada, registrei no computador a nossa conversa, rendeu uma página e meia, eu gostei de como ficou e reconheci que havia, por fim, escrito um dialogo. Quero dizer, pratiquei o que denominei de: “Monologizando um diálogo”. Ainda que fosse um dialogo comigo mesmo já que você é minha versão neptuniana, sabemos que existe mas não esta vista a olho nu, uma afirmação ,e aí dei uma cópia pru Drag professor ler. O professor não esboçou satisfação, colocou de lado como se o estivesse jogando na lixeira. 

JUREMINHA 

Pois hoje vamos fazer diferente. Vamos para a Biblioteca da escola. 

JUREMA

 E porquê do convite!? 

JUREMINHA 

Vamos lá dentro que explico ( Disse em tom imperativo). 

As duas caminham até a biblioteca procuram um lugar mais reservado e sentam. A música Palco de Gilberto Gil faz um fundo sonoro durante a entrada das duas no espaço da biblioteca. 


CORTA PARA O TITULO DO FILME : A NEÓFITA RUIM DE CONVERSA 

(NOME VIBRANDO - ANIMAÇÃO- NAS CORES DO ARCO ÍRIS) 


4. INT. BIBLIOTECA DA ESCOLA. DIA 


JUREMA 

 Antes que você diga qualquer coisa eu sinto aqui no meu coração que somente eu tenho desabafado contigo e parece que você agora quer falar, verdade?                                                       


JUREMINHA 

Vejo que percebeu meu movimento.


JUREMA

 Sim. Eu sinto que você tem que assumir o protagonismo, nesta jornada; você é forte. Jureminha exibe os muques! 

JUREMA 

Você é a minha versão Drag ,que pode com leveza pasoliniana dissipar o medo de expressar suas IDEIAS e entender a linguagem artística nesta jornada cineástica. Não mais trataremos das questões astrais. 

JUREMINHA 

Expressa uma fisionomia de dúvida e sorri como que debochado de Jurema.

 Chega de sufrir! Já era tempo, pois tô vendo que você tá a um passo de perder o bonde novamente. Já teve oportunidade de mostrar sua cara em vários mundos: quando saiu de uma cidade do interior e veio morar em Salvador para estudar na universidade, e se sabotou; quando esteve em Barcelona e sucumbiu a um diploma que você mesma o nega... Agora e aqui tá na hora de chegar para este mundo cachoeirano, sem marcar bobeira, mostrar que é uma artista e deixar fluir jorrar essa veia artística. 

Uma música somente dedilhada ao violão. Seu sonido chega para as duas, A música é a fogueira doce de Mateus Aleluia


JUREMINHA 

Vou pontuar três pontos: o primeiro que foi você quem escolheu o Professor GUIGA LUNA em vez do Professor BETO FLORES, sim ou não?  

JUREMA 

Sim, por uma dada intimidade astrológica, já te disse que meu nodo norte está no signo de virgem. Também pelo tom de voz dele que não propicia o constrangimento em si. Ao contrário parece mais se constranger com o tom de vozes alheias. 

JUREMINHA

 Certo, mas essa história de mapa astral chegou tardíssimo para você. Se tivesse atinado para ele como uma leitura no conhecimento de si própria, há mais de décadas e décadas atrás, possivelmente não teria se sabotado tanto e tanto: como pode fazer uma graduação em nutrição – até se fosse biologia! Isso foi o auge do seu sabotamento. Mas o que te levou a escolhê-lo o professor atual, foi por certo o material de leitura indicado por ele; o fato dele ter um nome espanhol possa que lhe tenha causado uma nostalgia por você haver feito morado na Espanha, e amar esse país. E essas coisas mexeram com a libido e possibilita um aconchego para a produção artística. E sem esse movimento libidinoso por certo a criação, o movimento artístico não fluiria em você. Tá na hora de desfrutar disso e firmar nas suas escolhas. Se quiser utilizar seu Monologizando o Diálogo como material da sua condição iniciática, neófita, você terá que se impor nisso e avançar. Ainda tem dúvida quanto a sua escolha!? 

JUREMA

 Não. Principalmente pelo presente decisivo que ele me regalou: a encenação da leitura de um diálogo. Fico me perguntado se ele se lembra da cena inteira quando ele leu comigo na sala de aula, o dialogo O LIXO, escrito por Luís Fernando Veríssimo. Ele colocou uma cadeira e disse-me:  Jurema venha ler comigo esse diálogo. Eu estranhei, mas não titubeie; e em vez de me sentar na cadeira que ele tinha posto, supostamente para que eu sentasse, enquanto ele se colocaria de pé ao meu lado, eu arrastei outra cadeira e sentamos os dois lado a lado. Somente dias depois, dei risadas do meu ato completamente involuntário, pois talvez acreditasse eu, que ele houvesse colocado a cadeira para ele mesmo, e não para mim. Coisa de !Hoje sei que o que Drag me deixou sair atordoada na sala da aula anterior, o dia da tarefa de escrita do dialogo, que afinal nem foi para "nota" foi principalmente tal experiência; o contato é a grande chave etnográfica; e nele um acontecimento que pontua a cognição e ativa a lucidez. Daí haver brotado o Monologizando o diálogo. E outro presente, foi a indicação do roteiro do filme Estômago, como modelo, como gabarito para indicar um conceito temático na produção fílmica de roteiro. Acho que ele nem se deu conta do presente principal que me regalou - a construção do diálogo… 

JUREMINHA

 Você conversou disso com ele? 

JUREMA 

Disso tudo - não; agora da minha identidade com o filme Estômago, sim. E no mais já disse p'oce EU SOU RUIM DE CONVERSA. JUREMINHA A segunda coisa pra comentar contigo é isso de você se ressentir do comentário inicial dele sobre a escrita do seu "argumento fílmico", lembra? Mesmo que ele, por suposto, não tenha dado importância ao seu: Monologizando o Diálogo, você segui com o Monologizando na escritura de um "argumento fílmico" a moda de uma defesa de tese, e não se preocupou em apurar os conceitos. Fez o 10. burros n'água argumento a seu modo e deu com os . Você conversou com o professor sobre isso? 

  JUREMA

 Eu sou ruim de conversa... 

JUREMINHA

 E por fim, como último e terceiro ponto, a FOGUEIRA da sua iniciação. Você tem enfatizado em mim, no desdobramento em você um DRAG espelhamento . Sei que do semestre anterior, no seu esquenta para esta iniciação e do efetivo da sua condição de neófita. Pois bem, o outro professor BETO FLORES quando do esquenta que antecedeu a essa sua iniciação, FLORES insistiu no interesse dele pelo estudo da personagem DRAG e você se irritava quando ele repetia tal interesse. Ele deu de bruxo, será? 

JUREMA 

Não sei, nem faço ideia. Era estranho escutar sobre o interesse dele sobre a personagem Drag. Ainda que já ali eu me reconhecesse entre a personagem TRAVESTI, e a personagem MULHER MACHO e em ambas ainda não me cabia bem a roupagem, a versão Drag se esclarecia na roupagem confortável mas o tom na voz de BETO FLORES não me seduzia para uma iniciação; para seguir com ele. A sala de aula é sempre um espaço tenso, conflituoso... 

JUREMINHA 

E como pretenderá descrever tal personagem? 

JUREMA 

Vou me lembrar do meu comportamento, das roupas que usei. Se possível dos olhares furtivos que o Professor BETO FLORES possa haver me observado e visualizar alguma pista para tal personagem.

 JUREMINHA 

Você sabe que o Professor BETO FLORES não lhe pontuou com um SOBRESALIENTE no semestre passado, pelo seu bonito sorriso; o qual aliás, nem aconteceu para ele. Ele reconheceu seu potencial. E, nesse caso, se somente se, acontecer alguma outra oportunidade por alguma necessidade de um aprofundamento da personagem DRAG você vai conversar com ele?

 JUREMA

 EU SOU RUIM DE CONVERSA, mas vou amadurecer em mim a circunstancia para um sentido dialógico.


 FADE IN 

Aos poucos a imagem da boca e da voz do cantor e do compositor MATEUS ALELUIA vai surgindo na tela e ele comenta:

MATEUS ALELUIA

Ancestralidade, pronto. Nós somos os ancestrais e nos somos os futuristas. É a verdadeira volta, é como se fosse à cobra picando a própria cauda; agente quando fala no ancestral agente fala daquele que há de vir; uma coisa esta totalmente ligada à outra; aquilo que é, é aquilo que já foi / aquilo que vai ser é o que tá sendo e o que já foi também.... Na sequencia da fala de Mateus Aleluia a imagem de JUREMINHA aparece participando de um Festival de Cinema de Pernambuco sendo abordada no salão no espaço do evento por um jovem jornalista pernambucano, mestiço claro, tipo sarará. Ele a indaga, sobre sua proposta fílmica de roteirização para o curta-metragem de 10’ intitulado: A Neófita Ruim de Conversa haver sido selecionado para premiação pela comissão julgadora deste evento. 


5. INT.ESPAÇO DO FESTIVAL DE CINEMA DE PERNAMBUCO/RECIFE. DIA 


JOVEM JORNALISTA Com muito gosto temos aqui Jurema que teve seu roteiro: A Neófita Ruim de Conversa, selecionado em nosso Festival e vamos pedir que nos diga sobre sua personagem Drag. 

JUREMINHA

No que ela está para uma condição etária septuagenária, há nela uma transgressão que lhe veste por um lado como uma personagem travesti, e elegante de natureza, literalmente telúrica, de um assombroso sentido juvenil posto numa mulher macho, paradoxalmente feminino como uma FOGUEIRA DOCE.


 (JUREMA aparece no lugar de JUREMINHA)

 O professor GUIGA LUNA em seguida é indagado pelo mesmo jornalista sobre seu fazer académico... 

JOVEM JORNALISTA

 Como foi sua experiência com esse encontro icônico? drag RISOS GUIGA LUNA Um aprendizado… Espero desfrutá-lo numa produção fílmica 


7. EXT.BEIRA DO RIO PARAGUAÇU/CIDADE DE CACHOEIRA. NOITE 


Uma FOGUEIRA a beira do Rio Paraguaçu E as imagens de Jureminha e de Jurema formam uma mistura visual num movimento de animação. ao fundo já dando lugar aos créditos a musica REALCE de Gilberto Gil e vozes sonoras em OFF




 Roteiro produzido por Cora Corinta Macedo de Oliveira  2024

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