A Mulher de Luz Própria e o Homem com H
ÂNGELA CARNE E OSSO – o filme, eu o assisti no cinema lá pelos anos de 1980, salvo equívoco, logo nos primeiros anos desta década. Isto de enfatizar dizer: - no cinema, positiviza o ato do buscar o entretenimento fílmico como leitura de si mesmo, como a tentativa de rever-se, ou não, desde a tela enorme; e, agora, da sensação que até hoje me povoa, diria que já ali, sem nenhuma experiência que não fosse sentir as imagens enredadas na proposta de roteiro, eu me senti na pele dramatúrgica da protagonista, é dizer eu gostei de assisti-lo. Na tentativa de racionalizar aqui tal sentimento fui buscá-lo para assisti-lo novamente mas, ainda não o logrei. Depois disso, muito recentemente, coisa de no máximo um ano, ou no segundo semestre de 2024, me chegou sob uma tarefa acadêmica de assistir e de comentar o filme, - COPACABANA MON AMOUR num Curso de Cinema, na prerrogativa da obtenção da “nota”. De novo, sem buscar qualquer comentário, do gosto e/ou da crítica a tal filme, eu o comentei sem mesmo apurar o dito que fosse na sua sinopse. Justificado, talvez, pelo exigido na tarefa escolar de ESTUDÁ-LO no contexto de uma dadateoria dramatúrgica. Nisto, tampouco ao assistir Copacabana Mon Amour relacionaria a protagonista ÂNGELA com SÔNIA SILK. Repito, - a transição de intelectualizar os sentimentos requer o tempo do amadurecimento para equacionar na linguagem a transcendência, a idealização pessoal espelhada, ou não, no retrato fílmico, não menos, o tentei:
A luxúria, a esbornia e o devaneio em Copacabana mon Amour... materializando a “peste” artoudiana?
Será que a construção dramatúrgica do filme Copacabana mon Amour dialoga com a demanda instigante do escritor Antônio Artoud quando ele compara a ação teatral pulsante com a “peste”, a peste (enquanto uma epidemia)? Se sim ou se não, e se se pode compará-la ou vê-la sob tal ótica, possa que no contexto do referido filme, a “peste” artoudiana enquanto uma manifestação orgânica espiritual está tão letal, tão mortal que a exposição de um único caso um único exemplar desta enfermidade possa ser considerado como uma EPIDEMIA. E para tanto a atuação vertiginal da protagonista se assume como uma voz da multidão no paralelo das experiências de autoritarismo tanto do Regime Militar, para uma abordagem citadina, quanto daquelas praticadas em regimes domésticos domiciliares. A protagonista desfila majestosamente em vários espaços e realidades circunscritas no bairro de Copacabana; um lugar já então famoso por abrigar uma diversidade de personagens e personalidades do Brasil e do Mundo. Valendo destacar daí o seu guardião; o guardião espiritual da protagonista: o seu curandeiro, aquele que confere a Ela o estatuto mitológico de uma princesa callejera, (uma loura oxigenada, para os invejosos) vestida sob a égide deste curandeiro e que, durante toda a sua transe dramatúrgica se apresenta com traje vermelho sangue, como se estivesse vestida a moda de uma criança completamente liberta e a vontade em suas estripulias. Ao mesmo tempo em que, esboça convulsivamente em seus devaneios de uma pessoa (criança) abandonada e entregue a própria sorte, - o paralelo da sua luxúria e da sua esbórnia.
E por fim o encontro com Helena Ignez. Primeiro desde uma entrevista fornecida se me lembro bem à uma rede de televisão baiana aonde Ela comentava e apresentava seu filme: ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE. Depois deste primeiro encontro virtual, houve no Campus, aonde estudo o Curso de Cinema, um evento tematizado na trajetória fílmica de Helena e no destaque ao seu filme biográfico: UMA MULHER COM LUZ PRÓPRIA. Ai, Ela ilumina sua trajetória com depoimentos da sua vida pessoal circunscrito na dinamica cineastica, para além da atuação como atriz, e aqui, em seus depoimentos há dado (digo dado desde meu interesse acadêmico pessoal) que mapeou sua a relação com o cineasta Gláuber Rocha aquele que demarcou em nós a bandeira Cinema Novo. Por certo tais conhecimentos é um premio para quem retrata o feminino, em particular, na condição de mulher, mulher que aspira que ambiciona afirmar seu viés cognitivo artístico. Tal desdobramento da trajetória pessoal, humana em Helena, dialoga com o feminino do HOMEM COM H. É vibrante vivenciar a experiência, os bastidores de personalidades tão importantes para esta ou aquela geração; seja para o bem ou para o mal (pois escutei recentemente quem se decepcionou com os relatos da experiência de vida do artista Nei MatoGrosso). Com as duas biografias, - eu vibrei no que a geração dos dois atuou em mim. AMBOS NA PROVA DOS NOVE. Uma metamorfose. Fortalece por suposto, um movimento que povoa emoção e alimenta, de certa forma em mim, o significado do engajamento politico com a ALEGRIA. Nisto, de volta ao Curso de Cinema que pratico atualmente, uma atividade que me chega é a de assistir um vídeo em tom radialista, uma entrevista com a pesquisadora Patrícia Mourão de Andrade, intitulado: “Por uma História Feminista do Cinema Moderno Brasileiro”. Bom, de inicio, eu trocaria, só por trocar, a palavra Feminista por História do Feminino..., isto considerando que o feminino abrange, por exemplo, tanto a Mulher de Luz Própria quanto o Homem com H; podia estar também na relação entre Ela e a biografia do escritor Paulo Coelho, - O Mago em sua ambição visceral por proclamar-se escritor lido pelo todo mundo. Qual nada! a pesquisadora Patrícia Andrade, conduz sua leitura do Feminino tendo a relação imagética com a trajetória da atriz, cineasta HELENA IGNEZ – e afirma o tom feminino em si, do seu engajamento artístico cultural. Feminino num movimento metamorfósico, indicado por Patrícia Andrade pelo que considera a exposição da vida pessoal de Helena aportando elementos da sua vida “privada” desde um contexto da produção cultural artística, no contrapondo de duas tendências cineásticas: o “cinema novo” na perspectiva glauberiana e o “cinema marginal” sganzerliano ambos os dois cineastas cruzaram a vida pessoal matrimonial domestica de Helena; destacando, possivelmente para um debate a máxima cinematográfica glauberiana no importante manifesto publicitário: “A Estética da Fome”. Salvo engano, Patrícia Andrade argumenta que tal “estética” edificada não no sentido da “violência” orgânica corporal (física) de base: – ESTOMACAL diz pouco para a idealização de uma estética das desigualdades sociais; ao contrário, ao enfatizar questões psicológicas e não estomacais da condição social e cultural de segmentos populacionais, entregues à sua própria sorte no quesito sobrevivência e o esforço dramatúrgico para afirmar um potencial humano, -cognitivo e artístico do viver dia a dia estaria evidenciado no CINEMA MARGINAL, o qual foi protagonizado na imagética da atriz Helena Ignez quando, digo eu, afirma uma estética metamorfósica, se afastando do tom cristão católico do reproduzir a categoria fome entre nós brasileiros. Daí, uma questão em mim que não quer se calar: a construção do “Manifesto Estética da Fome” foi fundado sob quais leituras glauberiana? Minha sugestão é de que: como toda a “elite acadêmica” do pós anos 1960, aderiu seguir a literatura do médico nutrólogo Josué de Castro, Glauber possivelmente construí seu ARGUMENTO fílmico a partir de dois livros castreano: O Livro Negro da Fome e Sete Palmos de terra e um caixão.
Será?
Eu adoraria escutar HELENA IGNEZ sobre o as referencias bibliográficas lidas por Glauber, e mesmo por ela quando se engaja numa dramaturgia do Cinema Marginal. Se em tais leituras constam tais referencias e mesmo outras, castreanas?? Uma curiosidade alimentada na razão de que o discurso politico, entre nós, de “A FOME”: é uma pedagogia estomacal esquerdista, no que nega o Outro reduzindo-o ao seu estomago e contribui para um tom evolucionista (colonizador) da condição humana de povos remanescentes, povos nordestinos...
Agora, me chegou o conceito de Curadoria Fílmica. já o havia escutado nas artes plásticas, e quando o li, assim como por acaso, logo pensei que fosse um desdobramento da atividade cineclubista. E é. E adorei tal conceito artístico. em particular para uma formação pedagógica deste ou daquele assunto, um assunto que se queira contestar ou mesmo afirmar. Nisso, vou buscar praticá-lo sob o conceito de Curadoria Cineástica, - pois não está somente para o filme, mas para o contexto tanto do espaço do cinema quanto da relação de pertença do enredo fílmico.
ResponderExcluir