A ENCRUZILHADA E O ANCESTRAL - Argumento

Se se pode pensar que um dos vieses do conservadorismo em espaços citadinos, em particular de cidades do sul da Bahia, se deva ao que temos em nós mesmos, negros e mestiços (pardos, sararás) - do silenciamento e, - da negação das nossas origens, da nossa ancestralidade civilizatoria africana, podemos então sugerir que tal postura possa alimentar o preconceito e o "racismo" contra nós,  a despeito de todo sofrimento,  todo constrangimento acometido aos povos negros ao longo da sua presença no Brasil. Afirmado tal pressuposto, digo que uma vez filha de negro por parte materna, nunca me foi conversado sobre meus bisavós,  sobre o que foi da condição deles por aqui. Nunca ouvir sobre o CANDOMBLE durante a infância.  E, perguntar sobre o CANDOMBLE,  mesmo nas últimas décadas era sempre motivo de silêncio e de hostilidade para se desviar do assunto. Ironicamente até o sobrenome: dos Santos (Não que eu fique a vontade com a expressão "Pai de Santo" ou "Mãe de Santo") , fora omitido do sobrenome de todos os nascidos na minha geração na linha de parentesco materno. Seria para constar literalmente "dos Santos" e não "Macedo ". Minha avó materna , uma certa feita me dizia da necessidade de "limpar o sangue"; eu sentia o tal dizer, um dito tão embargado pelo sofrimento que nem tinha voz para indagar sobre. Minha percepção sobre o pesar da minha avó materna, sempre me intuiu indagar se ela havia sofrido muito com o suposto fato de seus pais terem sido comercializados como escravos , pelos próprios conterrâneos. Ela era uma mulher inteligente. Lia e escrevia muito bem para uma mulher negra nascida em 1906...
22/10/2022
Na sequência, temos que em 2020, eu morando há dois anos numa cidade do sul da Bahia, distante 150km da.cidade aonde nasci, me.deparo com a saga de um casarão no centro da cidade de Canavieiras, o qual em 1994 foi doado com todo o mobiliário inclusive com um piano, a esse município para ser transformado em um museu, - um.centro cultural. O dito casarão está atualmente em.ruinas. E no que me interesso em conhecer sobre ele - o casarão, me deparo com uma história (estória!?) pitoresca de que seu dono um.tenente havia se suicidado aos 83 anos de idade (salvo engano) com um.revólver de ouro desde uma tem passional. Aqui e ali retomando uma página no Facebook a qual não tem sua autoria revelada, identifiquei se tratar de um homem negro; a.filha do dono, agora um Tenente, também negra e sem fenotipico de mestiçagem,  havia doado em testamento o casarão ao município de Canavieiras- Bahia. O Tenente segundo consta na página sem autoria revelada no Facebook migrou da cidade de Feira de Santana para as Canavieiras; coincidentemente meu avô materno também havia migrado de Feira de Santana para a cidade de Itabuna, então vizinha da que é hoje a cidade de Canavieiras.  O sul da Bahia foi no século 20 o espaço agrário da monocultura do cacau. Desde aí se pode traçar o drama de povos negros em cidades sul baianas, neste  particular. Sobre a condição de negros nas Canavieiras,  eu quando cheguei ali tratei logo de adquirir uma bicicleta e completamente desconpreendida imaginava que andar de bicicleta ali como meio de transporte fosse algo no sentido atual parisiense: o que há de mais civilizado. Ledo engano! Quem a utiliza como meio de transporte nas Canavieiras é preto negro e pobre, NUM PURO EXERCICIO DE FÉ.  O espaço da rua enquanto um espaço público apropriado e desfrutado  como marco civilizatório dos povos negros é vilipendiado e desprezado. 

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