"ESTAMIRA" : UMA PATAXÓ!?

 

A força coletiva e a potencia individual feminina: o reconhecimento de poderes tradicionais indígenas

 

Por: Cora Corinta Macedo de Oliveira


O filme documentário de longa metragem[1] Força das Mulheres Pataxó da Aldeia Mãe está tematizado na abordagem de gênero feminino de povos indígenas: de mulheres nativas da Aldeia Pataxó, ou de Barra Velha, a Aldeia Mãe no extremo sul da Bahia; seu enredo está indicado desde seu título, e engaja o tom político da ação fílmica aonde as palavras, os dizeres são flechas, mas, também, fogo.[2]; este documentário foi lançado no ano de 2019 e produzido desde a Universidade Federal do Sul da Bahia e está disponível no site do YouTube no endereço: https://www.youtube.com/watch?v=16BwFuijPAI; a direção cinematografia contou com a engenhosidade de duas mulheres indígenas Caamini Braz e Vanuzia Bonfim, ratificando uma perspectiva antropológica afirmada desde o caráter das  próprias pessoas etnografadas, “ou um cinema indígena desde o ponto de vista indígena”[3]. Em seus 72min de duração são convocados depoimentos de mulheres tribais engajadas na afirmação de seus valores culturais pautados no discernimento intelectual para se manterem libertas do jugo colonialista de procedência etnocêntrica ocidental. Como sinaliza a diretora Vanuzia Bonfim, há o esforço cotidiano das mulheres pataxós em si, de se situarem para além dos afazeres domésticos, exemplificando nelas o poder no controle de praticas medicas para atendimento em partos e tratamento de doenças[4]. Não menos, tantas outras experiências políticas poderiam estar recortadas, agora, para ilustrarmos nosso entusiasmo com esta construção etnográfica, mas aqui, ilustraríamos um conteúdo imagético que nos transportou para outro espaço fílmico. Estamos nos referindo à presença protagonista, da imagem da personagem pataxó que publiciza o filme: a Mestra Maria Coruja, que com seu canto, supostamente em tom soprano, tem a câmara focando-a principalmente em primeiro plano, e, somente ela em cena na tela; com expressão feliz e altruísta  na arte de entoar as operetas das lutas inglórias dos povos pataxós; as quais, embora, apresentem um conteúdo trágico, ela as canta (encanta) em um tom divertido, resiliente.  Olhá-la e escutá-la, nos fez retomar o filme documentário de longa metragem: Estamira, - produzido pelo cineasta José Padilha e dirigido por Marcos Prado, foi lançado em 2005[5].  E o que há de lucidez nos cânticos entoados pela Mestra Maria Coruja no documentário: Força das Mulheres Pataxó da Aldeia Mãe, há no discurso, no monologo renitente em Estamira; uma protagonista que guarda traços fenotípicos indígenas na face, mãos e cabelos. Estamira, sua pessoa está qualificada como portadora de “distúrbios mentais” [6], embora as imagens fílmicas revelem as contradições de uma mulher inteligente, lúcida e libertaria - dona de si, e amante da rua; o espaço doméstico, salvo engano, não bastaria para o: - estar, Estamira. Para finalizar questionaríamos: Estamira: uma Pataxó!? A possível contextualização étnica política da potencia da mulher indígena nos faz sugerir uma visita e revista paralela a estes dois contextos fílmicos documentários, tratados aqui brevemente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Ancine: https://www.gov.br/ancine/pt-br Filme de longa metragem com duração acima de 70’

[2] Este dito foi parafraseado a partir do resenhado por Iago Porfírio quando conclui seu texto Entre o fogo quente e o fogo frio, uma imagem: o filme Força das mulheres pataxó da aldeia mãe, indicando que “Em Força das Mulheres Pataxó da Aldeia Mãe as imagens são flechas, mas, também, fogo”                   file:///C:/Users/login/Downloads/5320-Texto%20do%20artigo-18723-1-10-20211103.pdf

[4] Artigo produzido pela cineasta e diretora Vanuzia Bonfim. Nele ela identifica o conceito de “ciência da medicina’ file:///C:/Users/login/Downloads/VANUZIA_2021%20(2).pdf

[5] Este documentário também esta disponível no canal youtube no endereço:   https://www.youtube.com/watch?v=-wHISEEXMh4

[6] Segundo a Wikipédia o filme documentário Estamira logrou inúmeros prêmios tanto no Brasil como a nível internacional. Cita também que a protagonista faleceu “...após dois dias no aguardo de atendimento no corredor do hospital, o quadro avançou para uma infecção generalizada, o qual ela não resistiu, ela faleceu no Hospital Municipal Miguel Couto, no Rio de Janeiro em 28 de setembro de 2011”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Estamira

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