SAMPA: Cadê São Paulo? Ô! Paulista

 Sampa é um conceito poético produzido pelo compositor Caetano Veloso na sua leitura etnográfica emotiva da mais importante metrópole brasileira: a cidade de São Paulo. A analogia com tal contato, matizará a vivencia na cidade de São Paulo, de uma baiana autora do presente ensaio acadêmico que se afirma em tons weberiano para um fazer metodológico e uma problematização sugestiva para uma parodia no sentido de A ética patrimonial e o espirito das desigualdades sociais. O presente texto mais que tudo se propõe a incitar o imaginar tipos ideais que compõe por suposto tal parodia; nisto, SAMPA, se relaciona com a ilusão do baiano partícipe da ideologia de metrópole - do encantamento com a cidade grande (baiano igual dizer em tons paulistano: todos os norte - nortistas); Cadê São Paulo? É o questionamento ao sentido de ilusão (Utopia) do imaginarmos São Paulo em nossas mãos, em particular a partir da década de 1980. Ou seja, São Paulo não foi imageticamente propriedade de "paulistano" e sim de um projeto de nação para o Brasil; e, por fim a expressão Ô! Paulista, para o confronto de lugares culturais e da alteridade entre nós baianos na SAMPA...


Enquanto um trabalho acadêmico trata-se tão somente de uma breve revisão de conceitos aplicados para a sociologia de Max Weber.1 Este como o nosso preferido teórico da sociologia nos estimula a lê-lo seja em seus pressupostos para um fazer cientifico filiado a uma metodologia que privilegia a perspectiva do investigador na ação do poder dizer algo sobre o outro que ao final é ele mesmo2; seja para uma reflexão da sua contribuição ao estudo do tipo de dominação que destacaremos para o presente estudo – a dominação patrimonialista em particular no que ela descende entre nós de bases patriarcais em Gilberto Freyre3 e estamental em Raimundo Faoro4. Estaremos também elencando pistas etnográficas identificadas aqui nas parcas andanças da investigadora a baiana, nas salas de aula dos cursos realizados na PUCSP no semestre 2009.2, em algumas leituras produzidas por acadêmicos, intelectuais e artistas, coletadas desde agosto até agora novembro do mesmo ano: 20095 6 na dinâmica da memória de tempos outros vividos na cidade de São Paulo.

Para tanto, temos ainda que SAMPA, além da poética de Caetano Veloso se relaciona com a ilusão do baiano partícipe da ideologia de metrópole – do encantamento com a cidade grande (baiano como todos os norte - nortistas); Cadê São Paulo? É o questionamento ao suposto significado da globalização para desvendar o sentido da ilusão do imaginarmos São Paulo em nossas mãos. Ou seja, São Paulo não foi propriedade de “paulistanos” e sim um projeto de “cidadania” para o país; e por fim a expressão Ô! Paulistano. para o confronto de lugares culturais e da alteridade entre nós baianos na SAMPA. E, claro do suposto lugar do paulista – (e se pode dizer do lugar daqueles que compõem, por exemplo, a Escola de Samba Vai Vai, quando afirmam-se como paulistanos), eles, como o dono desta engenhoca sem pé nem cabeça que parece haver resultado a nossa São Paulo. 7

Sugerir a palavra engenhoca assume dois caminhos. Por primeiro o susto ao olhá-la em alguns espaços da cidade  e atualizar o percebido em encontros acadêmicos8 do seu


1 Cohn Gabriel. (org). Weber. Sociologia. ABDR. 2008.

2 Demarcando por um lado “... uma correlação entre sujeito-objeto como pólos de uma única realidade, pois aquilo que é possível de ser conhecido, assim como o que é conhecido, constitui uma relação de sujeito-objeto.. Tratemberg, Mauricio. Max Weber. Burocracia e Ideologia. Ática, 1977: 114

3 Freyre, Gilberto. Casa grande e Senzala. Rio de Janeiro: Record. 1998.

4 Faoro, Raimundo. Os donos do poder. Formação do pensamento político brasileiro. São Paulo: Globo, 2000. 5 II Seminário Internacional Cidade Teatro Espetáculo. As representações da cidade entre o espetáculo e a cena teatral contemporânea luso brasileira. PUCSP 21 a 23/10/2009.

6 O Trecheiro. Noticias do povo da rua. Rede Rua Comunicação. SP. Nº. 182. Ano XIX Outubro/2009.

7 “Mais de uma geração de paulistanos cresceu acreditando que o destino da sua região metropolitana era ser a “locomotiva do país”. Uma das mais fortes imagens da modernidade moldou suas mentes e sua cidade. A partir dos anos 50, o lema era: “São Paulo não pode parar”!”. Caldeira, Tereza. Acidade dos muros. Crime, segregação e cidadania em São Paulo. Edusp/ 34. São Paulo 2000: 45

8 Neste sentido destacaríamos e agradecemos a sugestão de leitura do livro Cidade de muros de Teresa Caldeira pelo sociólogo Edmilson Bizelli professor do curso Fundamentos de sociologia PUCSP. É este livro que instrumentaliza o pressuposto de ironizarmos a tese weberiana para uma leitura da metrópole paulistana na Ética patrimonialista e o espírito das desigualdades sociais.


eminente abandono com o acirramento das desigualdades sociais e culturais. 9 Segundo ao que desejamos parodiar sobre o conceito de patrimonialismo paulistano. O engenho paulistano é sinônimo da burocracia estamental?

As primeiras andanças da baiana nela – na cidade de São Paulo data do início da década de 1980 quando a ordem era democratizar as relações sociais; no inicio desta década estaria em evidencia o discurso democrático; o que pode ganhar sentido o bem estar da baiana quando nela esteve com visitas frequentes no período de 1982 até 1986. Onde os “nordestinos” e entenda-se os “baianos” afro descendentes mestiços como ela ocupavam a Praça da Sé, o bairro do Bexiga, a Avenida Paulista, e o Parque Ibirapuera.

SAMPA sim. Porque, qual não foi de nós nordestinos que não se ilusionou com as propagandas de luzes da formação desta metrópole? São Paulo chegaria para os nordestinos castigados pela seca e pelas supostas relações de opressões das relações patriarcais trabalhistas imperativas do nordeste, como sendo a terra prometida.

Na década de 80 em particular o clima das relações espaciais na cidade de São Paulo sugeriria que iríamos então desfrutar de uma radical democratização no acesso aos bens de consumo em particular pelas populações pobres nordestinas que marcaram a ocupação trabalhista na SAMPA.

“Até o fim do regime militar, a política era um domínio exclusivo da elite. Com a abertura, contudo, os moradores da periferia passaram a ser importantes atores políticos, ocupando a Praça da para apresentar suas reivindicações e afirmar seus direitos à cidade. Seus movimentos sindicais e sociais surpreenderam a todos; eles puderam reivindicar um espaço público que estava em aberto, mas não necessariamente para eles.”.10


Neste contexto de uma sugestiva euforia pós militar aconteceria à primeira visita da baiana a esta prospera terra paulistana. Prospera, então, para a formação intelectual. Se não nos equivocamos somente São Paulo ainda em 1980 liderava a formação de pós-graduação no Brasil. A Universidade de São Paulo a menina dos olhos de todo e qualquer intelectual ou projeto de intelectual. E foi ali no CRUSP (Conjunto Residencial dos Estudantes da USP) que a baiana se hospedou em sua primeira viagem a SAMPA. A cidade São Paulo que chegava para a baiana estaria compartilhada no espaço estudantil e como tal a frequência era para o desfrute dos movimentos culturais – de caráter artístico. Os lugares por ela frequentados seriam a Radio Clube em Pinheiros, a Avenida Paulista, no que nela pulsava os movimentos dos músicos: Itamar Assunção e a Banda Isca de Policia, a Banda Performática, a Clara Crocodilo de Arrigo Barnabé.

9 “É andarmos pela cidade para ver o caos em que ela se encontra fruto de uma política autoritária, centralizadora e sem participação efetiva da sociedade civil organizada.”. Editorial do Jornal O Trecheiro. Noticias do povo da rua. Rede Rua Comunicação. SP. Nº. 182.  Ano XIX Outubro/2009

10 Caldeira, Teresa Pires do Rio. Cidade dos muros. Crime, segregação e cidadania em São Paulo. Edusp/ 34. São Paulo: 2000.


Também foi possível a ela viver o bairro da Liberdade antes da globalização – é dizer, os produtos que ali eram mercados dificilmente os encontrariam em comercio de outra cidade. E a Praça da Sé, como um lugar de visitação preferida, desde o lugar comum de uma alteridade “Jeca” ou “Cangaceiro”, marcava a presença de artistas populares em particular os cordelistas nordestinos que liam à cidade e expressavam na escrita a desdita a sua condição infame de habitá-la. Ali circulava as produções musicais independentes de todo o Brasil...

 

Abrigo de Vagabundos Adoniran Barbosa 1959

 

Eu   arranjei   o   meu   dinheiro/   Trabalhando   o   ano   inteiro/   Numa   cerâmica   /   Fabricando   potes e lá no alto da Moóca /Eu comprei um lindo lote dez de frente e dez de fundos/ Construí minha maloca/ Me disseram que sem planta/ Não se pode construir /Mas quem trabalha tudo pode conseguir/ João Saracura que é fiscal da Prefeitura/ Foi um grande amigo, arranjou tudo pra mim/ Por onde andará Joca e Matogrosso/ Aqueles dois            amigos/              Que                      não                    quis             me          acompanhar Andarão jogados na avenida São João/ Ou vendo o sol quadrado na detenção/ Minha maloca, a mais linda que eu já vi/ Hoje está legalizada ninguém pode demolir/ Minha maloca a mais deste mundo/ Ofereço aos vagabundos/ Que não têm onde dormir

 

Visitava regularmente o bairro do Bexiga. As lembranças deste bairro estão localizadas nos teatros, nas galerias de pizzarias, e somente recentemente, ao final do mês de outubro 200911 identificamos que ali está situada a quadra onde se realizam todo domingo a partir do mês de setembro, se não nos equivocamos, os ensaios da escola de Samba Vai Vai. A escola de Samba dos “Gaviões”. E pronto questionamos: a relação com a formação da escola de samba estaria vinculada a afros descendentes paulistas? Ou a Vai Vai é um invenção de nordestinos?

Neste tempo ela já havia assistido ao filme O Homem que virou suco12 ainda como estudante do curso de graduação 1980 – 1985 e particularmente no paralelo de viajes para São Paulo. Igual já havia lido – O direito a Preguiça de Paul Lafargue13. Como estudante viajante na cidade de São Paulo ainda que por primeiro estivesse no Butantã, em outras viagens não demoraria ocupar o Itaim Bibi, a Oscar Freire e Perdizes em particular, e, como mínimo – o bairro de Aclimação. Podendo identificar que negros nestes bairros ocupam os serviços de empregada domestica de porteiros os quais ainda hoje parecem conduzir-se numa relação ostensiva no servir aos seus patrões. Alguns momentos vividos, por exemplo, atualmente no bairro de Perdizes na PUCSP a baiana observaria que funcionários do atendimento ficam aturdidos entre atender ao rigor da fila e priorizar o atendimento a despeito da fila a um

 

 

 


11 “Ori” Documentário de Raquel Gerber de 1989.

12 Do diretor João Batista de Andrade. 1980

13 Escrito em 1880 não localizamos a primeira tradução para o português.


cliente branco e/ou que solicitam o que desejam em tom imperativo. Também os porteiros dos edifícios residenciais se portam como se fossem capatazes dos patrões14 15

A baiana se alarmaria também, com o abandono da Avenida Paulista. Por exemplo, nos pontos de ônibus não está regularmente sinalizados os roteiros dos ônibus para os seus respectivos pontos. Ademais parece não se efetivar como um direito à circulação ali de ônibus noturno. Alarmar-se-ia também com o fato de que no Parque Ibirapuera – um dos principais oásis da cidade como sugere Teresa Caldeira16 não tenha acesso até ali uma linha de metro; e também não se tenha disponíveis ali vários caixas eletrônicos de bancos ou mesmo até um caixa eletrônico 24h. Ressaltando que este Parque alberga multidões de pessoas todos os domingos; as imediações do bairro Bexiga por sua vez sendo ocupado literalmente por mendigos e moradores de rua e afros descendentes mestiços levando-nos a afirmar que o escrito por Florestan Fernandes17: “Do escravo ao cidadão” onde se teria a cidadania como um folclore!?

Não obstante, as condições de vida entre os paulistanos pobres é uma preocupação e elemento de discussões regulares, a exemplo do Observatório dos Direitos do Cidadão. 18 Onde nele se acompanham e analisam as políticas públicas da cidade de São Paulo onde se discute, por exemplo, Habitação, Movimentos Sociais, Educação entre outros temas. 19



14 Domésticas, o filme. Filme de Fernando Meireles.

15 “Teresa Caldeira em seu livro “A cidade dos muros” tipifica a “fala do crime” que segundo ela: “ A fala do crime constrói sua reorganização simbólica do mundo elaborando preconceitos e naturalizando a percepção de certos grupos como perigosos. Ela de modo simplista divide o mundo entre o bom e mal e criminaliza certas categorias sociais. Essa criminalização simbólica é tão difundido que até as próprias vitimas do estereotipo ( os pobres, por exemplo) acabam por reproduzi-lo ainda que ambiguamente.” 200:10.

16 Caldeira, Teresa. A cidade dos muros. . Crime, segregação e cidadania em São Paulo. Edusp/ 34. São Paulo: 2000.

17 Bastide, Roger e Florestan Fernandes. Brancos e negros em São Paulo. Ensaio sociológico sobre aspectos da formação, manifestações atuais e efeitos do preconceito de cor na sociedade paulistana. São Paulo: Editora Nacional. 1971.

18 Work shop: Requalificação Urbana no Centro de São Paulo e suas múltiplas dimensões: assistencial, habitacional, urbanística e cultural. PUC SP 15/10/2009.

19 Observatório dos Direitos do Cidadão. Acompanhamento e analises das políticas publicas da cidade de São Paulo. Instituto Pólis/ PUC SP 25 Movimentos Sociais os desafios da participação. Nºs. 4 Habitação avaliação da política municipal; 14Habitação fundo Municipal; 31 Habitação controle social e política pública.



Foto de Fabio Nassif. Copiada da mostra fotográfica “Direito a Moradia”. 19/11/2009 PUC/SP.

 

O tema das desigualdades sociais em São Paulo é problematizado também pelo colunista social Isay Weinfeld na revista das linhas aéreas TAM20. Segundo Weinfeld “São Paulo é fascinante, mas com uma qualidade de vida péssima” para ele este é o grande motivo para não se ter prazer ao andar a pé: “as calçadas, os postes, os canteiros e os vasos.”.

E, se por um lado à palavra engenhoca retrata o susto atual da nossa investigadora, a baiana, o qual por vez está sendo ratificado a partir das referencias até aqui citadas, destacando em particular o livro A cidade dos muros; por outro escuta-la na correspondência com a palavra engenho, a imaginação parece vazão somente para uma experiência econômica escravocrata vivida unicamente no nordeste brasileiro. Engenho é nordeste e parece percorrer prontamente as relações entre a casa grande e a senzala. O que nos leva a exclamar: e, houvera negros escravos em São Paulo?! Ou somente os nordestinos afros (mestiços) povoarão em particular a metrópole a capital paulista ao longo do século 20? Em São Paulo o vivido do sistema escravocrata não contemplou relações patriarcais?

A temática da presença de negros no espaço paulistano está posta aqui não para respondermos as inquietações que esta temática enseja, embora seja necessário retomarmos em particular a presença na SAMPA dos nordestinos como um marco afro descendente para incitar o espírito das desigualdades sociais de caráter cultural no marco paulistano. Nela, os nordestinos são reconhecidos pelos paulistanos como “baianos”. “A pecha de “baiano” é

 

 

 


20 Revista TAM. Capa. 22 . Out/2009


genericamente atribuída aos migrantes nordestinos e revela preconceito.”. 21 A que se deve a “pecha de baianos”? Quais elementos servirão de base para materializá-la? 22

A partir de então gostaríamos de tentar problematizar o uso da palavra engenho sugerindo a questão de uma dada ética patrimonialista. Nela a civilização é uma meta a ser alcançada. Uma ascese social que sugere ter no modo de vista da elite paulistana o seu modelo para se alcançar o “espírito da cidade”. O “ethos metropolitano” como sugere o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Segundo ele trata-se de um caráter que alberga fatores da “pressa” e do “pragmatismo”. “A pressa demarcaria a condição de uma vida urbana e a fixação do interesse da população quase que num só objetivo, o trabalho, conformou um ethos  pragmático que marcou o estilo de vida da cidade...”. 23

“A cidade, ao mesmo tempo que introduz padrões civilizatórios mais significativos, próprios da sociedade competitiva, traz também sua contrapartida que decorre do fato de o homem viver num mundo mediatizado por criações culturais especificas, cujo acesso a compreensão não ocorre sem atritos. O acesso ao estilo de vida metropolitano só se dá a partir de uma experiência de conquista: conquista de seus valores, de seus benefícios, da compreensão do ritmo intenso e às vezes desconexos da sua pulsação.”.

 

O trabalho estaria na ordem da possibilidade de uma ascese à condição de civilizado? Ou de uma condição de urbano? Dizer civilizado seria o mesmo que dizer urbano? Qual conceito de urbano estaria concorrendo para delinear o “ethos” do ser metropolitano? Um parecer ser burgues? O que seria a vida urbana e como defini-la?24

Filosofia

Adoniran Barbosa Composição: Noel Rosa 1930

O    mundo    me    condena,    e    ninguém    tem    pena/    Falando    sempre    mal    do    meu     nome Deixando de saber se eu vou morrer de sede / Ou se vou morrer de fome /Mas a filosofia hoje me auxilia /A viver                indiferente        assim/         Nesta                             prontidão                      sem                        fim Vou fingindo que sou rico / Pra ninguém zombar de mim / Não me incomodo que você me diga Que a sociedade é minha inimiga / Pois cantando neste mundo / Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo / Quanto a você da aristocracia / Que tem dinheiro, mas não compra alegria/ Há de viver eternamente sendo escrava dessa gente / Que cultiva hipocrisia.

 

Segundo Lefebvre “A vida urbana pressupõe encontros, confrontos das diferenças, conhecimentos e reconhecimentos recíprocos (inclusive no confronto ideológico e politico)

 


21 Véras, Maura. Enigmas da Gestão da cidade mundial de São Paulo: políticas urbanas entre o local e o global. Pg. 209. In: Metrópole e globalização. Conhecendo a cidade de São Paulo. Souza, Adélia A. de. et. Al.

CEDESP São Paulo 1999.

22 Em 1974 Jorge Mautner é dispensado do PASQUIM, como parte integrante do movimento ante – baiano do jornal. Começa então sua revolta e ataques à nomes como Millôr Fernandes e outros cabeças do PASQUIM.” www.jorgemautner.com.br

23 Cardoso, Fernando Henrique; Singer, Paul; Camargo Candido Procópio F. de; Kovarik, Felix. São Paulo: CEBRAP (caderno 14) 1973: 16

24 Delgado, Manuel. El animal publico. Hacia uma etnografia de los espacios públicos. Barcelona: Anagrama. 1999.


dos modos de viver dos padrões” que coexistem na cidade.”. 25

E nesta direção regressaríamos ao inicio do nosso escrito quando nos referimos à experiência de uma baiana em SAMPA. Ela foi num dia do ultimo mês de setembro 2009, do bairro de Perdizes até o bairro do Bexiga de ônibus para visitar o ensaio da Escola de Samba Vai Vai. O primeiro ônibus: de Perdizes até a Praça Ramos. Da Praça Ramos, segundo informação do cobrador do ônibus, ela teria que descer umas escadas, atravessar uma Praça – supostamente a da Bandeira e subir outras escadas para ter acesso a outro terminal de ônibus – o terminal da Praça da Bandeira, que um ônibus ali a levaria até a quadra da Vai Vai. Ao descer na Praça Ramos confirmou a informação do caminho ate a Praça da bandeira com uma transeunte aparentando não mais do que trinta anos e que levava vestida despojada, do tipo esporte sem bolsa ou outro acessório deste tipo; se poderia dizer de um tipo que não atrairia a atenção de assaltantes no que a bolsa e adereços brilhantes possam chamar a atenção para tal confronto. Entretanto, embora a transeunte prontamente dissesse que iria para o mesmo lugar, ressaltou que não desceria as escadas sugeridas tampouco atravessaria a pequena praça, pois tinha medo, ela iria dar uma volta que significava o triplo do caminho a ser percorrido, a bem de não cruzar a Praça da Bandeira. A baiana perguntou-lhe – qual seria esse caminho? A transeunte mostrou-lhe. E ela decidiu fazê-lo a espanto da transeunte. Trata-se de um lugar abandonando pelos poderes públicos, limpeza citadina ao “deus dará”, iluminação publica ineficiente um lugar às escuras, ocupado por mendigos, e pessoas outras que seria impossível qualificá-las. Na radicalidade da pertença da baiana a sua condição afrodescendente   mestiça – seria ela mesma. Ou seja, delas o que se poderiam dizer é que se tratava de pessoas afrodescendentes mestiças.

Não menos, para surpresa nossa a Praça abriga, um aparato policial de se “tirar o chapéu” (possa que fosse para aquele momento de mais ou menos às 21h do domingo no paralelo do ensaio da Escola de Samba da Vai Vai). Depois de atravessar a Praça e já para subir outros pares de escadas que daria acesso ao terminal da Bandeira voltou a confirmar qual ônibus deveria pegar que passasse na Av. 9 de julho – “que me leve até a Quadra da Vai Vai?” . O guarda disse-lhe: vários - O Varginha, o Capelinha, o Santo Amaro...

E, nisto da presença da policia, fato que se repetiu quando ela visitou o Parque do Ibirapuera e identificou ali um ainda maior e mais expressivo aparato policial com cachorros, várias viaturas, o que nos faria relembrar do seu confronto com a Policial Federal em 06 de fevereiro de 1998. Ela iria realizar a sua primeira viagem ao continente africano com direção ao Benin. Chegou ao aeroporto de Congonhas (se não nos equivocamos) desde o aeroporto de Salvador. A fila para o embargue estava imensa e ela se colocaria na fila


25 Lefebvre, Henri. O direito a cidade. São Paulo: Centauro. 2001: 22.


enquanto aguardava o seu anfitrião beninês que viria do Rio de Janeiro. Enquanto o esperava olhando aqui e ali, foi abordada por dois homens em trajes civis que se apresentaram como sendo do corpo da polícia federal. Como tal começaram a inquiri-la do por que da sua viagem ao Benin. Ela completamente despojada disse que iria passear. A insistência em pedir os documentos e o tom hostil e violento dos policiais a desestabilizou e como não entendia o que estava acontecendo vez que mantinham esse mesmo tom depois da apresentação dos documentos, começou a chorar. Embora mostrasse o recibo de pagamento do vinculo empregatício com a Universidade do Estado da Bahia de nada adiantava para acalmar os policiais que alegavam a suspeita dela ser uma traficante de drogas. Confiscaram bagagem e documentos e a levaram ao sanitário para exame de toque. Ela completamente aviltada e indignada chorava, ainda mais. Não está possível  recordar o tempo deste inquérito, parecia-lhe um século... Nisto chega o seu anfitrião beninês que a encontrando aos prantos foi logo pontuando – baiana: com a polícia a última coisa que se tem a fazer é chorar. O anfitrião vestido com a indumentária de Rei beninês, mais parecia um estadista africano. Ele deu risada, tripudiou os policiais alterando o jogo de forças. O que por certo não aliviou o constrangimento da baiana, que viajou despedaçada. Ela que já havia viajado para França, quando viajar para este país se exigia um visto do consulado Frances no Brasil antes do embarque e que o máximo se lograria como turista cinco dias – isto em agosto de 1993. Qual nada! Ficou na França por 15 dias e em momento algum, por sorte na equivalência do citado ocorrido, foi molestada pelos policiais, mesmo quando viajava em trem neste país; para, em seu próprio país ser descriminada pela policia! e, mais, dentro do aeroporto e apresentando a documentação do seu vinculo de trabalho...

 

E foste um difícil começo Afasto o que não conheço

E quem vende outro sonho feliz de cidade Aprende depressa a chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

 

As desigualdades sociais aqui entre nós parecem sugerir uma causalidade que mais edifica um nada poder fazer na ordem política vigente uma vez que o Outro em particular o Baiano, insiste em não “evoluir” da sua condição animal “esfomeado”; de macular as regras para uma ascese civilizatória.



 


 


 

 



Comentários

  1. *Trabalho apresentado na VIII Semana de Ciências Sociais da UFS, realizada entre os dias 13
    e 16 de abril de 2010, Aracaju, Sergipe, Brasil. ( Revisto para esta publicação)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

UMA NEÓFITA RUIM DE CONVERSA

A Mulher de Luz Própria e o Homem com H

A Cidade e as Sensações Ancestrais de uma Pessoa Mestiça.