Fabulações...
Fabulações com o
cinema: RELAÇÕES DE ALTERIDADES DEMARCANDO AS CONTRADIÇÕES ENTRE
O REAL E A FICÇÃO NA PRODUÇÃO FILMICA DE CARATER “DOCUMENTARIO”
Nada mais prazeroso do que identificar as
ideias, os sentimentos incipientes e iniciática na intenção de, quem sabe,
iniciar uma produção fílmica do tipo documentário[1], subjetivando-o a uma
concepção de ficção, atualizadas na discussão teórica da produção
cinematográfica e de suas relações com o engajamento de questões sociais. Tais
sentimentos sempre estiveram na ordem do assistir esse ou aquele filme, mas não
do dominar o argumento imagético para afirmar conceitualmente o que se
desejaria produzir. Por exemplo, em 2009, o renomado cineasta brasileiro José
Padilha, lançou o documentário “Garapa”. Ao assisti-lo se tinha em mãos uma
series de ponderações em si do conteúdo que a “narrativa” abordava e
mesmo reproduzia, por suposto, de um dado conceito da categoria fome, editada
nos anos de 1930, para cenário político brasileiro. Tanto que perseguimos uma
seria de plataformas que apresentava o filme e postamos o resumo abaixo:
Me bata uma “GARAPA”!. A fome
brasileira atualizada no cinema.
Me bata uma garapa ou me faça uma garapa é uma expressão utilizada para
desqualificar a alguém que nos chega com uma provocação barata; como de
sarcasmo. Ramon Andrade pela internet diz tratar-se de um dito baiano que “…
exprime um sentimento de um momento raivoso do tipo não me enrole, ou…”. No
lugar comum desta expressão tentaremos alcançar uma critica sobre a veiculação
cinematográfica do documental produzido pelo cineasta José Padilha – GARAPA.
Assisti-lo nos tomou de assaltou o sentimento de raiva, misturado com
constrangimento; isto pelo feito de entendermos como invasivo o olhar
fotográfico aos corpos daqueles que pelas imagens projetadas nos chegou como
remanescentes de aldeias indígenas; roubados legalmente no uso de terras
brasileiras. Roubados e largados à própria sorte como se somente eles e mais
ninguém pudessem ter participação nos roubos históricos estatais às populações
indígenas e quilombolas. E, nisto da câmara invasiva, questionaríamos o porquê
dela descansar a lente na nudez de uma criança do sexo masculino que (a
despeito do que Padilha enfatiza na pretensão documental – a fome) parecia
estar em plena forma de vitalidade física – subindo e descendo os muros do
casebre. Outro sentimento foi à satisfação de pensar que a GARAPA, largamente
batida pelos protagonistas do documentário pudesse significar uma desdita a
soberba do diretor quando reduz toda a existência dos figurantes ao seu
estomago. O Diretor afirma seu discurso imagético GARAPA no arauto da
descoberta da fome no Brasil – Josué de Castro. Indagaríamos: existe alguma
leitura critica da produção acadêmica à fome castreana?[2][3]
Atualmente
desde uma iniciação em temas cinematográficos ler comentários sobre o referido
documentário Garapa, tal foi à surpresa com o conteúdo da resenha intitulado Falsa[4]
Denúncia do comentarista Kleber Eduardo em junho de 2009[5]. Sem conseguir compreender
o traçado de Kleber Eduardo para formular o conceito de Falsa Denuncia, se pode observar que as imagens por ele
selecionadas para comporem seu comentário estão mais para cumprir o sentido “em
si diegésico” ausente no documentário de Padilha; a resenha termina por sugerir
possivelmente outro “roteiro” sinalizando para uma possível discriminação em
Padilha da aparência das personagens de fenótipos indígenas. E mesmo sendo um
filme documental, não ficcional, reproduz “...
as ideias dominantes do ponto de vista do colonizador, mesmo quando ela é
concebida pelo autor do filme.”. Isto dito, desde a leitura de As potencias do Falso o qual aponta para
os conceitos de alteridade, intermediando relações de “intimidade imagética” entre a personagem e a câmara, sugestivo
para máxima passoliniana, - Cinema de Poesia, no contexto de uma simulação de narrativa
etnográfica uma vez que a personagem é vista
e se vê e as concepções da ficção e do real estão imbricadas. Não há “... ruptura entre ficção e realidade, mas
no novo modo de narrativa que os afeta” [6]. Ademais da proposta
fílmica de Pasolini, Deleuze irá indicar, para interesse neste relato, a
cinematografia de Perrault ressaltando o conceito de engajamento com a cultura
popular encontrando “... uma identidade
coletiva perdida, reprimida”; e, enquanto Deleuze abrange as relações de
alteridades entre a postura da câmara, dos equipamentos fílmicos e as
personagens, na sequência o texto: Pasage
al Actor[7]
discuti sobre a atuação de um ator que opera uma ficção e de outro que
opera um documental; ou, de um actor de
oficio e um ator de passagem
respectivamente. Canneli ira pontuar
sobre as diferenças comuns na atuação de atores nestes dois segmentos fílmicos,
reivindicando o conceito de autopuesta encena, aonde “Filmar es exponerse a la mirada de aquellos
que filmamos. Y por conseguinte darles pie.[...] aventura comum.” E diante de tanta mediação interação entre
ator e produtores, entre câmara e personagens se pode um questionar: Ser ou não
ser o autor de seus documentários? Este é o titulo do artigo escrito por
Michele Garneau[8]
relatando sobre a posição do cineasta quebecquiano
Pierre Perrault quanto à posição de autoria dos seus documentários; ela inicia
retomando dele o conceito de um cinema direto[9]. E aqui se retoma a
relação de Perrault com a câmara e os instrumentais audiovisuais sinalizados
por Deleuze. Do como ele ira dominar seu entusiasmo com tais instrumentos sem
desmerecer seu lugar em pé de igualdade com a atuação das personagens. Os
áudios visuais como servos da arte e nunca ao contrário. Desde uma posição de
literato, poeta, escritor, cineasta ao lançar o filme icônico Pour la Suíte du Monde[10],
demarcou uma atuação de filme etnográfico documental gestado na relação
mediadora de atores de paso, habitantes
vinculados a comunidade de referencia espacial para comporem a cinematografia.
Segundo relatos sobre este documentário[11][12], a genialidade mesclada
com o caráter poético socialista da equipe de direção, num lugar aonde Perrault
modestamente se coloca como personagem a serviço de uma cultura libertária.
[1] Ou ainda, que seja obter argumentos
imagéticos (teóricos) para ler uma obra cinematográfica.
[3] Outra página que ainda mantém
(04/06/2023) tal comentário é: https://lella.wordpress.com/2009/10/28/garapa-sem-pastel/
[4] A Palavra “Falsa” estaria vinculando à proposta deleuziana subjacente as Potencias do Falso? Foi o que imaginamos, mas o autor não dispôs referencias de leitura para tanto.
[6] Deleuze, Gilles. As Potencias do
Falso. 179-188 pg. In: DELEUZE, Gilles. A imagem Tempo. Tradução Eloisa de
Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2005.
[7] Comolli, Jean-Louis. Pasaje al
Actor. 137-146 pg. In: COMOLLI, Jean – Louis. Cuerpo y Cuadro: cine, ética
y La necesidad de La crítica. Tradução: Jean Manoel Spinelli. 1ª Ed. Cuidad
Autonoma de Buenos Aires: Prometeo Libros, 2017
[8] Michèle Garneau, Ser ou não Ser o autor de seus
Documentários. In:
MICHEL, Marie e ARAUJO, Juliana (Orgs). Pierre Perrault: O real e a Palavra.
Belo Horizonte: Belafon, 2012
[9] O CINEMA
DIRETO proposto desde Pierre Perrault desde o marco do longa metragem Pour la Suíte du Monde estaria sendo
retomado atualmente, no Brasil ? Teria reflexos, por exemplo, no filme/seriado
reproduzido no Portal Netflix: MANHÃS DE
SETEMBRO (? Aonde a narração esta posta para contextualizar esse ou aquele
acontecimento, sem desmerecer a autoatuação
em cena fictícia das personagens numa pratica etnografia? Ou o filme
documentário de Fernando Meirelles – Doméstica,
o filme....
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