Fabulações...

 

Fabulações com o cinema: RELAÇÕES DE ALTERIDADES DEMARCANDO AS CONTRADIÇÕES ENTRE O REAL E A FICÇÃO NA PRODUÇÃO FILMICA DE CARATER “DOCUMENTARIO”

 

 

Nada mais prazeroso do que identificar as ideias, os sentimentos incipientes e iniciática na intenção de, quem sabe, iniciar uma produção fílmica do tipo documentário[1], subjetivando-o a uma concepção de ficção, atualizadas na discussão teórica da produção cinematográfica e de suas relações com o engajamento de questões sociais. Tais sentimentos sempre estiveram na ordem do assistir esse ou aquele filme, mas não do dominar o argumento imagético para afirmar conceitualmente o que se desejaria produzir. Por exemplo, em 2009, o renomado cineasta brasileiro José Padilha, lançou o documentário “Garapa”. Ao assisti-lo se tinha em mãos uma series de ponderações em si do conteúdo que a “narrativa” abordava e mesmo reproduzia, por suposto, de um dado conceito da categoria fome, editada nos anos de 1930, para cenário político brasileiro. Tanto que perseguimos uma seria de plataformas que apresentava o filme e postamos o resumo abaixo:

 

 

 

NOVEMBRO 17, 2009 @ 10:18 PM

Me bata uma “GARAPA”!. A fome brasileira atualizada no cinema.
Me bata uma garapa ou me faça uma garapa é uma expressão utilizada para desqualificar a alguém que nos chega com uma provocação barata; como de sarcasmo. Ramon Andrade pela internet diz tratar-se de um dito baiano que “… exprime um sentimento de um momento raivoso do tipo não me enrole, ou…”. No lugar comum desta expressão tentaremos alcançar uma critica sobre a veiculação cinematográfica do documental produzido pelo cineasta José Padilha – GARAPA. Assisti-lo nos tomou de assaltou o sentimento de raiva, misturado com constrangimento; isto pelo feito de entendermos como invasivo o olhar fotográfico aos corpos daqueles que pelas imagens projetadas nos chegou como remanescentes de aldeias indígenas; roubados legalmente no uso de terras brasileiras. Roubados e largados à própria sorte como se somente eles e mais ninguém pudessem ter participação nos roubos históricos estatais às populações indígenas e quilombolas. E, nisto da câmara invasiva, questionaríamos o porquê dela descansar a lente na nudez de uma criança do sexo masculino que (a despeito do que Padilha enfatiza na pretensão documental – a fome) parecia estar em plena forma de vitalidade física – subindo e descendo os muros do casebre. Outro sentimento foi à satisfação de pensar que a GARAPA, largamente batida pelos protagonistas do documentário pudesse significar uma desdita a soberba do diretor quando reduz toda a existência dos figurantes ao seu estomago. O Diretor afirma seu discurso imagético GARAPA no arauto da descoberta da fome no Brasil – Josué de Castro. Indagaríamos: existe alguma leitura critica da produção acadêmica à fome castreana?[2][3]

 

Atualmente desde uma iniciação em temas cinematográficos ler comentários sobre o referido documentário Garapa, tal foi à surpresa com o conteúdo da resenha intitulado Falsa[4] Denúncia do comentarista Kleber Eduardo em junho de 2009[5]. Sem conseguir compreender o traçado de Kleber Eduardo para formular o conceito de Falsa Denuncia, se pode observar que as imagens por ele selecionadas para comporem seu comentário estão mais para cumprir o sentido “em si diegésico” ausente no documentário de Padilha; a resenha termina por sugerir possivelmente outro “roteiro” sinalizando para uma possível discriminação em Padilha da aparência das personagens de fenótipos indígenas. E mesmo sendo um filme documental, não ficcional, reproduz “... as ideias dominantes do ponto de vista do colonizador, mesmo quando ela é concebida pelo autor do filme.”. Isto dito, desde a leitura de As potencias do Falso o qual aponta para os conceitos de alteridade, intermediando relações de “intimidade imagética” entre a personagem e a câmara, sugestivo para máxima passoliniana, - Cinema de Poesia, no contexto de uma simulação de narrativa etnográfica uma vez que a personagem é vista e se vê e as concepções da ficção e do real estão imbricadas. Não há “... ruptura entre ficção e realidade, mas no novo modo de narrativa que os afeta” [6]. Ademais da proposta fílmica de Pasolini, Deleuze irá indicar, para interesse neste relato, a cinematografia de Perrault ressaltando o conceito de engajamento com a cultura popular encontrando “... uma identidade coletiva perdida, reprimida”; e, enquanto Deleuze abrange as relações de alteridades entre a postura da câmara, dos equipamentos fílmicos e as personagens, na sequência o texto: Pasage al Actor[7] discuti sobre a atuação de um ator que opera uma ficção e de outro que opera um documental; ou, de um actor de oficio e um ator de passagem respectivamente. Canneli ira pontuar sobre as diferenças comuns na atuação de atores nestes dois segmentos fílmicos, reivindicando o conceito de autopuesta encena, aonde “Filmar es exponerse a la mirada de aquellos que filmamos. Y por conseguinte darles pie.[...] aventura comum.”    E diante de tanta mediação interação entre ator e produtores, entre câmara e personagens se pode um questionar: Ser ou não ser o autor de seus documentários? Este é o titulo do artigo escrito por Michele Garneau[8] relatando sobre a posição do cineasta quebecquiano Pierre Perrault quanto à posição de autoria dos seus documentários; ela inicia retomando dele o conceito de um cinema direto[9]. E aqui se retoma a relação de Perrault com a câmara e os instrumentais audiovisuais sinalizados por Deleuze. Do como ele ira dominar seu entusiasmo com tais instrumentos sem desmerecer seu lugar em pé de igualdade com a atuação das personagens. Os áudios visuais como servos da arte e nunca ao contrário. Desde uma posição de literato, poeta, escritor, cineasta ao lançar o filme icônico Pour la Suíte du Monde[10], demarcou uma atuação de filme etnográfico documental gestado na relação mediadora de atores de paso, habitantes vinculados a comunidade de referencia espacial para comporem a cinematografia. Segundo relatos sobre este documentário[11][12], a genialidade mesclada com o caráter poético socialista da equipe de direção, num lugar aonde Perrault modestamente se coloca como personagem a serviço de uma cultura libertária.



[1] Ou ainda, que seja obter argumentos imagéticos (teóricos) para ler uma obra cinematográfica.

[3] Outra página que ainda mantém (04/06/2023) tal comentário é: https://lella.wordpress.com/2009/10/28/garapa-sem-pastel/

[4] A Palavra “Falsa” estaria vinculando à proposta deleuziana subjacente as Potencias do Falso? Foi o que imaginamos, mas o autor não dispôs referencias de leitura para tanto.

[6] Deleuze, Gilles. As Potencias do Falso. 179-188 pg. In: DELEUZE, Gilles. A imagem Tempo. Tradução Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2005.

[7] Comolli, Jean-Louis. Pasaje al Actor. 137-146 pg. In: COMOLLI, Jean – Louis. Cuerpo y Cuadro: cine, ética y La necesidad de La crítica. Tradução: Jean Manoel Spinelli. 1ª Ed. Cuidad Autonoma de Buenos Aires: Prometeo Libros, 2017

[8] Michèle Garneau, Ser ou não Ser o autor de seus Documentários. In: MICHEL, Marie e ARAUJO, Juliana (Orgs). Pierre Perrault: O real e a Palavra. Belo Horizonte: Belafon, 2012

[9] O CINEMA DIRETO proposto desde Pierre Perrault desde o marco do longa metragem Pour la Suíte du Monde estaria sendo retomado atualmente, no Brasil ? Teria reflexos, por exemplo, no filme/seriado reproduzido no Portal Netflix: MANHÃS DE SETEMBRO (? Aonde a narração esta posta para contextualizar esse ou aquele acontecimento, sem desmerecer a autoatuação em cena fictícia das personagens numa pratica etnografia? Ou o filme documentário de Fernando Meirelles – Doméstica, o filme....

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