AS FABULAÇÕES MAZZAROPIANAS PARA A IMPORTÂNCIA DE O ATO DE LER O SER DA ROÇA
AS
FABULAÇÕES MAZZAROPIANAS PARA A IMPORTÂNCIA DE O ATO DE LER O SER DA ROÇA
Paulo Freire quando trata em seu livro a
Importância do Ato de Ler[1],
qualifica: a leitura de mundo precede a
leitura da palavra escrita. Esta expressão por certo - um mantra,
apropriado desde sua enfática repetição entre todas as pessoas que respeitam e
acreditam que o domínio da palavra escrita esta circunscrito na socialização de
possibilidades lingüísticas que reverberam para além dos muros escolares. Tal
entendimento nos impõe a recorrência que estabelece, por suposto, daquilo que o
Mestre Felipe Serpa compreendia como uma proposta imagética; Serpa ressaltava e
incitava ao pé de ouvido das pessoas estudantes nos cursos de mestrado em
educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, (isto lá
nos anos de 1996), o seguinte: “Não se trata de estudar a categoria de
imaginário desde uma perspectiva já consolidada na disciplina psicológica”; reivindicava, principalmente, e, antes de tudo
uma pesquisa, uma atuação literal na produção e na reprodução das imagens entre
nós. E, no caso da autora deste relato, enquanto docente na área de formação
acadêmica em pedagogia costumava enfatizar: - todo profissional de pedagogia
goste ou não: está fadado a prerrogativa da obrigatoriedade do ato de ler. E
ler, entenda-se não somente os conteúdos corporativos de livros técnicos, mas
efetivamente a literatura artística que promove indubitavelmente a leitura de mundo. Indiscutivelmente
que tal prerrogativa deva constar da leitura da produção artística em geral: músicas,
poesias, pinturas, e para este escrito: a produção cinematográfica no Brasil e quiças
no mundo. Para este momento intitulado
Mazzaropi: a Importância do Ato de ler o Ser da Roça (o Ser do rural, do caipira, do matuto que habite, ou
não, os espaços citadinos), o objetivo está tão somente para pinçar uma
perspectiva de estudos imagéticos, ou de uma leitura de mundo, a partir da
produção cinematográfica. Pode-se imaginar que aqui e ali tal pratica já se
efetive, e bom será reconhecermos onde quando e como tal ação pedagógica esta
acontecendo nas escolas governamentais, (Embora esse não seja o caminho adotado
aqui) destinadas ao Ensino Fundamental I em particular, por considerar albergar
famílias, em geral, de crianças não tem o costume, e/ou não dispõem de cabedal
cultural, para desfrutar do acesso a produção cultural em espaços alternativos
como cinemas, cine clubes, espaços alternativos de recreação, centros culturais.
De forma que os próprios espaços escolares institucionais aportem tal
conhecimento, uma questão imperativa para dinamizar as relações de
aprendizagem.
Eleger a produção cinematográfica do
cineasta Mazzaropi para relatar a importância do ato de ler, esta sugerida por
abrigar uma personagem vigorosa até os dias atuais. O Jeca. O Jeca Tatu. Uma
imagética, por suposto mais próximo de uma tipologia indígena, uma vez que o principal
preconceito que está albergado em seu favor é o de preguiçoso, de politicamente
incapaz de pensar e de agir para prosperar. E como tal, serviu a indústria
farmacêutica na imagética de um homem desnutrido e hospedeiro de parasitas
intestinais. Essa desdita ao tipo cultural não civilizatório do Jeca Tatu é retomada
e interpretada na imagética mazzaropiana para demarcar um território fílmico de
alteridade do caipira.
Como dirá o cantor e compositor Gilberto
Gil em Jeca Total[2],
e pode igual estar sendo reivindicado por nós num Lamento Sertanejo[3]:
Por ser de lá/ na certa por isso mês/ não gosto
de cama mole/ não sei comer sem torresmo/ Eu quase não falo/ eu quase não sei
de nada/Sou como rés desgarrada/ nessa multidão boiada caminhando a esmo.
Também, teríamos a personagem da
literatura infantil em “gibi” denominada de Chico
Bento na criação do cartunista Mauricio de Souza[4],
também alberga, como em Mazzaropi, uma leitura (e de mundo) afirmativa,
civilizatória do Jeca; e não se poderia deixar de citar a canção do cantor
Xangai: Nóis é Jeca, mas é Jóia.[5] Nesta
canção tem uma parte bem baiana, no que estamos neste seminário de movimentos
sociais em educação, o gosto pela farinha de mandioca: Se farinha fosse
americana/ mandioca importada/ banquete de baça/ Era farofada...
Todas estas expressões retroalimentam a produção
cinematográfica mazzaropiana e dela se pode indagar, se a formação do
profissional em pedagogia alimenta uma leitura imagética desta produção
fílmica? Se sim ou, se não, se poderia indagar também se os espaços acadêmicos
que estudam cinema e áudio visual, em particular na Bahia, retomam a produção
mazzaropiana? Uma busca na internet se pode verificar a leitura acadêmica desta
produção principalmente em estudos na área de história[6],
das ciências sociais[7]. Ademias
sua obra hoje esta albergada no Museu MAZZAROPI. [8] Nele
está disponibilizado online o acervo
fílmico em disposição cronológica; também sugestões e críticas. Mas, e o que dizem desde a crítica fílmica ao
cinema de Mazzaropi? Dos poucos artigos localizados, se destaca aqui o texto de
Lucia de Oliveira Almeida intitulado “Do povo ao público - a crítica de Jean-Claude
Bernardet[9] ao
cinema de Amácio Mazzaropi. Lucia Almeida como que irritada com as duas
primeiras criticas elaboradas desde os filmes: Chico Fumaça e Lamparina,
respectivamente o oitavo em 1958 e o décimo sexto filme mazzaropiano em 1964,
ressalta a mudança no tom da critica de Bernardet quando o mesmo comenta o
filme produzido em 1978: Jeca e seu Filho
Preto; e pontua: “... O crítico chega a afirmar que “’Jeca e seu filho
preto’, como muitos outros filmes dele, é exemplar e tem um valor didático, de
tão esquemático que é. Portanto, se algo mudou, foi o pensamento de Bernardet.”
[10].
Sem entrar no mérito dos conceitos tratados por Lucia Almeida, se destaca aqui
o particular do nosso encontro com o cinema Mazzaropi. O dito interesse não
esteve para o conceito de “povo”, “massa”, “multidão”, “público” e “popular”
presente nesta abordagem aos filmes mazzaropiano,
mas o tom que Mazzaropi ira conferir ao personagem lobatiano Jeca Tatu. Sobre isso o jornalista Paulo Moreira Leite no
comentário A Hollywood Caipira[11]
nos atualiza que Amácio Mazzaropi nunca havia lido Monteiro Lobato, sugestivo
de uma versão etnográfica, uma leitura de mundo mazzaropiano escrita na
descrição desde ele próprio para afirmar um conceito do Ser Caipira.[12] Um
tom que nos chega distante do preconceito a uma dada tipologia de preguiçoso, de
indolente por indolente; afirma-o em sua alma
caipira[13],
descolonizando-o[14].
Importante, sem dúvidas essa perspectiva a ser conferida para um estudo de
popularização da sua obra. Alma caipira e Descolonizador de uma máxima da indústria
farmacêutica que patologizava o tipo
caipira para vender a cura da sua preguiça. Mazzaropi passa desta lógica e atua
expondo sua auto-estima na fé por uma lógica de vida não “capitalista selvagem”[15].
Uma abordagem que se contradiz com a institucionalização do capitalismo
brasileiro a partir dos anos de 1930 quando prioriza a industrialização
citadina em detrimento dos pequenos e dos médios agricultores no Brasil. O trabalho
de ator em Mazzaropi confere, repetimos - um tom etnográfico, e demarca suas fabulações no território existencial da
sua relação com o campo e com o fazer na agricultura, em forma de comedia. De
saga. Nesta direção o comentário jornalista
Ely Azeredo[16]
ao enfrentar a crítica depreciativa e acena para a versão descolonizadora da cinematografia de Mazzaropi, particularmente no
filme Jeca e seu filho Preto.
Enfatizando a genialidade da atuação de Mazzaropi Ely Azeredo ressalta o
sucesso de publico em todos os seus lançamentos fílmicos. O que nos autoriza
dizer que A Alma Caipira[17]
é a própria imagem da sua fabulação estética, no jeito de andar, na postura
corporal. Uma personagem que em si inspira o riso na razão da simpatia. Para
esta versão da fabulação mazzaropiana está à homenagem produzida no filme de nome:
Tapete Vermelho.[18] Desde
que o assistimos imaginamos se tratar como tal - uma homenagem ao cineasta
Mazzaropi, percepção apurada no comentário do site do Governo do Estado de São
Paulo quando do lançamento do filme pela Secretaria de Educação deste Estado:
“Com muita ação e humor, a trama presta uma homenagem a
Mazzaropi. No elenco, o ator Matheus Nachtergale vive o personagem Quinzinho,
um caipira de uma roça distante, que precisa cumprir uma promessa que fez ao
seu pai: levar o filho de 10 anos ao cinema para assistir a um filme de
Mazzaropi.”[19]
E se tínhamos algo a sistematizar sobre
cinematografia de Mazzaropi, o conteúdo do filme Tapete Vermelho o faz com maestria. Em especial no conceito do amor
ao campo e na lida das atividades agrário-rurais. Valendo ressaltar que o
entendimento neste relato tem na dicotomia rural a cidade (e não rural X
urbano) e para o urbano o conceito de atraso (conservador); então ficaríamos
com as dicotomias : Rural X Cidade; e,
Urbano X Atrasado (Conservador). O urbano como a categoria operante para se
compreender as relações entre o rural X a cidade (o espaço citadino),
prevalecendo a ordem de que o urbano, enquanto perspectivado para uma condição
humana está em qualquer lugar. E, é, justo esse lugar que as fabulações mazzaropianas
ocupam e reivindicam para o Jeca, para o Ser do campo, para o Ser do rural. Nisto,
o Jeca mazzaropiano embora declare
seu lugar rural, preso ao agrário, sua mentalidade jovial, inquieta, mesmo
indolente (como um silencio para afirmar o que ele não é) se assume como um
caráter urbano. [20][21] A
dor do Jeca é sofreguidão, desassossego frente às desigualdades sociais. Essa
vertente esta presente para o bem e para
o mal, que seja, no movimento artístico do ator, diretor, roteirista,
produtor cultural Amácio Mazzaropi desdobrado na sua construção performática.
Amácio/Jeca faz da sua mentalidade, do seu viver um espaço citadino no sentido
de um espaço público, como o espaço da prática do urbano. Jeca é um ponto de encontro, de confrontos entre o rural e o
citadino, em ambos nele esta seu caráter urbano, é dizer: angustia,
instabilidade,
Não obstante, outros aspectos podem estar na ordem
do dia do debate existencial instituído na cinematografia mazzaropiana, a exemplo das relações maritais e do conceito de
família.
[1] https://educacaointegral.org.br/wp-content/uploads/2014/10/importancia_ato_ler.pdf Copia do livro disponibilizada
em PDF
[4] https://www.opovo.com.br/vidaearte/2021/09/04/chico-bento-60-anos-mauricio-de-sousa-conta-a-historia-do-personagem.html
[6]https://revistafenix.emnuvens.com.br/revistafenix/article/view/521; file:///C:/Users/login/Downloads/3756-Texto%20do%20artigo-12495-1-10-20150902.pdf ; file:///C:/Users/login/Downloads/3898-Texto%20do%20artigo-6448-1-10-20180606.pdf; https://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/10244/Introdu%C3%A7%C3%A3o.Cap.I.II.III.IV.Conclus%C3%A3o.2012-1.pdf
[7]https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFG_29aec43db4f1e8aed9f12774e4d4483a ; https://www.umc.br/_img/_diversos/pesquisa/pibic_pvic/XII_congresso/projetos/Patricia_Gomes.pdf ; file:///C:/Users/login/Downloads/2064-9541-4-PB.pdf ; file:///C:/Users/login/Downloads/3898-Texto%20do%20artigo-6448-1-10-20180606.pdf ; https://www.marilia.unesp.br/Home/Eventos/2015/iseminariointernacionalpos-graduacaoemcienciassociais/6.-lays-matias-mazoti-correa.pdf
[9] Uma, das três criticas escritas
por Bernardet sobre o cinema mazzaropiano, e, citada por Lucia Almeida, “Nem
Pornô, nem policial: Mazzaropi”, esta disponibilizada na página do Museu
Mazzaropi
[10] Almeida, Lucia
[11] Leite, Paulo Moreira leite. A
Hollywood Caipira. Folha de São Paulo, 1977. Disponível no Museu Mazzaropi
[12] “Fabulações” é um conceito hoje
muito recorrido na critica cinematográfica, indicando uma posição de destaque
na teoria cinematográfica. Estaria a cinematografia mazzaropiana inscrita como
uma categoria de fabulações? Na medida em que suas criações retomam contextos
do real e mescla com a imaginação, com uma leitura de mundo do seu criador,
transitando suas concepções numa zona humorística será provável de tê-la como
um marco nesta contemporânea teorização.
O texto de Jorge Miguel Marinho intitulado, - Fabulação: um mundo onde
todos sonham de 23.07.2019 e disponível na página: https://www.cenpec.org.br/acervo/fabulacao-um-mundo-onde-todos-sonham, nos incita a conceituar a
cinematografia mazzaropiana nesta direção ou dizer: As fabulações mazzaropianas do cotidiano caipira. ; tomando
em conta em paralelo o sucesso de publico nas exibições dos seus filmes. . Neste sentido, Jesana Batista Pereira ira
aproximar a imagética do caipira mazzaropiano a uma tipologia identificada como
o PÍCARO da literatura espanhola. “Tomando como referência a literatura, eu
diria que os filmes de Mazzaropi se aproximam do romance picaresco. A novela
picaresca é um gênero característico e genuíno da literatura espanhola. [...] Pícaros
existiram e existem em vários países, mas em Espanha é que ele ganha uma
representação específica. A novela picaresca floresceu durante os séculos XVI e
XVII, depois foi decaindo, mas muitos outros países adotaram as suas
características. Independente da influência espanhola, pode haver pícaros na
literatura. Mas disse-se que, com pouquíssimas exceções, todos levam uma marca
do parentesco com os pícaros da literatura espanhola. A título de curiosidade,
a primeira novela picaresca apareceu em 1554 e foi La Vida Del Lazarillo de
Tormes ( autor desconhecido).”
[13] Jairo Ferreira A Alma Caipira do cinema que deu certo. Estado de São Paulo. 1991. Museu Mazzaropi
[14] Ely Azevedo. Jeca o
descolonizador. 1978. Disponível no Museu Mazzaropi
[15] https://pt.wikipedia.org/wiki/Capitalismo_selvagem
[16] Ely Azevedo. Jeca o descolonizador. 1978. Disponível no Museu Mazzaropi
[17]“Não
será exagero, em revisita,
dizer que Mazzaropi é a essência
da alma cabocla de um cinema em busca de sua identidade.” https://www.museumazzaropi.org.br/sucesso/a-alma-caipira-do-cinema-que-deu-certo/
[18] A autora deste relato ganhou uma
cópia do Tapete Vermelho, por um colega de trabalho. Um colega também pedagogo
que certa vez a convidou para participar de uma atividade letiva na sala de
aula que ele ministrava; o tema era o filme Jeca Tatu. Entusiasmada com a
temática, apresentou sua versão do entendimento do desempenho teatral mazzaropiana
do Jeca, tendo-a como de alteridade aos caipiras em geral, afirmando o gosto
pela vida do campo e do trabalho com a agricultura familiar. Passado alguns
dias, o colega professor lhe disse, por dizer: - “Sua apresentação conceitual da
percepção do Jeca Mazzaropiano, desmontou completamente a perspectiva minha”; segundo
o próprio, tal percepção estava contrária a dele. No final a autora nunca soube,
a bem da verdade, qual seria, então, a posição do colega sobre o conceito do Jeca
cinematográfico. Não obstante, foi ele mesmo quem a chamou para atenção do
lançamento do filme: Tapete vermelho, lhe regalando uma cópia em DVD.
[19]https://www.educacao.sp.gov.br/filme-tapete-vermelho-e-exibido-hoje-no-palacio-dos-bandeirantes/#:~:text=Com%20muita%20a%C3%A7%C3%A3o%20e%20humor,a%20um%20filme%20de%20Mazzaropi.
[20] O antropólogo espanhol Manuel
Delgado aborda em seu livro El animal
Publico. Hacia uma antropologia de los espacios públicos, publicado na
cidade de Barcelona, Anagrama em 1999, uma preocupação para o que ele considera
um equivoco a dicotomia entre o rural X urbano. Haveria um vicio linguístico em
associar o rural como oposição ao urbano. No entanto o urbano enquanto uma
categoria relacionada as estruturas citadinas, as estruturas físicas na
construção de cidades, de metrópoles, não dá conta de dimensionar a presença do
urbano no sentido da ordem cognitiva, intelectual no humano. Sugere daí a
dicotomia do urbano X conservador para um plano das relações sociais.
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