Presos Pelo Estômago - A FOME: uma pedagogia estomacal esquerdista? Um ensaio
Presos Pelo Estomago
A FOME: uma pedagogia estomacal esquerdista?
Presos pelo Estômago é o nome de um conto, escrito por Lusa Silvestre, que compõe o livro PÓLVORA, GORGONZOLA E ALECRIM: Contos Gastronómicos. Este conto foi o mote para a produção do filme ESTÔMAGO pelo diretor Marcos Jorge. A temática fílmica argumenta a gastronomia, o gosto por uma boa comida, saborosa e bem preparada em seu poder de negociação em circunstancias diversas e adversas. Sem contudo ressaltar a perspectiva do estômago pela fome, ao contrário, o estômago como um lugar de prazer, de memória olfativa e gustativa; de engajamento na oralidade de pessoas que sabe e reconhece o valor de uma boa comida e seus percursos políticos e sociais para produzi-la. Esta perspectiva estomacal parece não se relacionar como a questão que nos move: A FOME: uma pedagogia estomacal esquerdista?
As pessoas de esquerda que trabalham como jornalistas, e ou influenciadores de opiniões no Brasil, pelo menos aquelas que apreciamos e costumamos acompanhá-las na frequência midiática, quando tratam do tema das históricas desigualdades sociais, apelam para reduzi-las à palavra FOME; e a politizam-na para o sentido literal; é dizer: carregada de caráter biológico; e do quanto que a repetem, ela é por certo uma das palavras, (se não, a mais), bastante utilizada na fala política de esquerda, em suas diversas expressões: “A FOME TEM PRESSA”, “A FOME VOLTOU”, “A FOME ANDA NO BAIRRO”, “NATAL SEM FOME”; “CARNAVAL SEM FOME”; “COMBATE A FOME”; “A FOME AVANÇA NO BRASIL”, “ERRADICAÇÃO DA FOME”, CIDADES SEM FOME”, “FOME ZERO”, “MAPA DA FOME”, “BAHIA SEM FOME”2... Escutar tais pessoas, repetindo-a nos causava irritação, aborrecimento, e, dado o tom na referência a fisiologia humana (o estômago) há por suposto no desdobramento, em particular das ações políticas, um caráter caritativo (cristão católico!?) de ordem filantrópica. Nisso, do sentimento de rechaço, o máximo que conseguimos traçar como uma provocação nas plataformas mediáticas preferenciais do YouTube ( Opera Mundi, TV 247 TV, DCM TV, COTV ...), foi a indagação: A FOME: uma pedagogia estomacal esquerdista? 3
Sempre incitada a formalizar nossa divergência com o uso político, repetido e frequente da palavra “FOME”. no argumento de que tal conceito/categoria alberga (repetimos) um caráter pejorativo, preconceituoso e discriminatório na medida em que inferioriza o Outro, a suposta pessoa faminta, reduzindo-a ao seu próprio estômago, temos o uso frequente da dicotomia: FOME X ALIMENTAÇÃO. Será que a oposição da fome é alimentação? A palavra Alimentação é (está) contrária, é antônima a palavra “Fome”? Por suposto, o contrario da palavra Alimentação estaria mais sugestivo para a palavra: INANIÇÃO. E o contrario da palavra FOME possivelmente NUTRIÇÃO. Todas as pessoas, crianças ou adultas, ricas ou pobre, pretas ou brancas ou indígenas estão passiveis de sentirem a sensação de FOME, estejam elas, - alimentadas ou não. A sensação de FOME tem no estômago a matriz da sua repercussão; valendo citar a expressão: - “estou com o estômago nas costas”, significando sentir a necessidade de alimentar-se; de comer comida; e pode ter outras filiais causais no corpo humano? Uma pessoa estressada, por exemplo, pode sentir-se como necessitando de comer para recuperar forças. Mas será que o fato de comer, de ter acesso à alimentação será suficiente para atender as necessidades nutricionais do organismo humano? Este fato está bastante elucidado atualmente por médicos nutrólogos em redes sociais na internet (YouTube) como, por exemplo: Lair Ribeiro (pioneiro numa abordagem médica nutricional não hegemônica) na página U MIÒ QUI TA TENO, Gabriel Azzini, Kátia Haranaka, Roberto kater, entre outros, unânimes em afirmar que se alimentar não é o mesmo que se nutrir. Alimentar-se pode sim “matar a sensação do estômago vazio”, aliviar o reflexo estomacal da necessidade do comer comida4, mas não do: nutrir-se...5 O médico nutrólogo Lair Ribeiro, tece uma severa avaliação do papel da indústria de alimentos no Brasil na produção de compostos alimentícios que inflamam o corpo humano, como os hidrogenados; as altas concentrações de açúcares e conservantes; também enfatiza o abandono de práticas alimentares tradicionais de povos brasileiros. Com milhões de seguidores, os médicos nutrólogos midiáticos têm favorecido o consumo de pé de galinha , de suínos e de bovinos para obtenção de colágeno; nas redes de mercado atualmente já comercializam com destaque tais alimentos in natura (a exemplo do pé de porco, encontrado anteriormente somente na forma conservada no sal). Os nutrólogos citados acima, todos eles pontuam preocupações com o papel da indústria farmacêutica em todo o mundo, e no Brasil em particular. É a partir deles que nos permitimos sugerir que a oposição da palavra ALIMENTAÇÃO, a não usar a palavra inanição, o mais próximo do ponto de vista “científico” seria a Desnutrição, mais apropriada para qualificar a ausência de nutrientes para suprir as necessidades orgânicas. E do ponto de vista politico? Dito isto, ressaltaríamos que a palavra Desnutrição também teve sua politização; e o seu uso político nos levou a seguir os espaços escolares governamentais no Brasil quando esteve quando esteve como a principal hipótese para justificar o “fracasso escolar”, -“a evasão” e a “repetência escolar” entre crianças “pobres”. É dizer, inicialmente, se intuía uma relação entre o conceito do alimentar a criança em espaços escolares governamentais e a institucionalização do discurso d’A Fome Brasileira. 6 Havia uma tese hegemônica preponderante nos Governos Militares de que seria a desnutrição na criança “pobre” o que estaria justificando seus baixos rendimentos escolares e possibilitando uma explicação para os altos índices de “repetência” e de “evasão escolar”. 7 Os estudos que refletiam sobre o “fracasso escolar” fomentados majoritariamente por profissionais da área de psicologia, pontuava que o papel da medicalização ou patologização da infância, da criança “pobre”, com o suposto diagnóstico de desnutrição, servia unicamente para negligenciar uma postura critica sobre a gestão escolar e as responsabilidades governamentais no respeito ao desejo das crianças de desfrutarem intelectualmente tais os espaços. (Valendo ressaltar que o acesso a escola não se constituía como uma obrigatoriedade e ainda em 1971 uma criança/adolescente para ter acesso ao que hoje, digamos, é o Ensino Fundamental II teria que se submeter a um vestibular e se aprovada em média poderia dar sequência aos seus estudos básicos). As publicações procuravam desmistificar o discurso de “merenda escolar” atentando para a ideologia que se constituía na razão da desnutrição com causa principal do “fracasso escolar” instituindo uma ideologia alheia ao papel das praticas pedagógicas, das condições do trabalho do magistério, e das características arquitetônicas das escolas na efetiva manutenção da evasão e da repetência escolar. Ademais, os estudos nesta direção entendiam que a “merenda escolar” funcionava para a instituição escolar como um álibi, a criança iria à escola com o objetivo maior de se alimentar de uma “merenda escolar”: que anunciava que iria chegar; é esperada nos espaços escolares, mas está sempre atrasada e/ou nunca chega, e quando chega deixa a desejar; está requentada, e com palatabilidade suspeita.8 A ênfase causal política no uso da palavra desnutrição como responsável pelo “fracasso escolar” viabilizava (e talvez ainda viabilize) o pensamento de que a melhoria do rendimento escolar estaria basicamente dependente de alimentação na escola. Em 28/07/1996 o Jornal A Tarde da cidade de Salvador publica uma matéria intitulada: “Estado comprova que alunos vão à aula pela alimentação” e coloca a foto de uma cantina da escola cuja imagem é de crianças negras, e em letras menores afirmam que “A merenda escolar impede uma evasão ainda maior nas escolas estaduais, pois é responsável pela presença da metade dos alunos”. Sobre tal tese jornalística o educador e pesquisador Sérgio Costa Ribeiro, em 1993 estudando “A educação e a inserção do Brasil na modernidade ( texto publicado no Caderno de Pesquisas) ressalta que os pais insistem anos a fio com os filhos na escola, ainda que com a repetição de uma mesma serie, indicando o desejo das famílias em escolarizarem seus filhos, e de toda e qualquer criança desejosa de utilizar lápis coloridos em papeis brancos...Mas como a tese da relação entre desnutrição explicando o fracasso escolar de crianças pobres foi instituida no Brasil? Pitorescamente, A FOME foi descoberta nos Mangues do Capibaribe na cidade de Recife, no paralelo do ato de observar a atividade humana de catar caranguejos nos lamaçais. O texto literal escrito pelo seu descobridor o medico nutrólogo Josué de Castro é reproduzido, em particular pela corporação de nutricionistas com louvor público no XIV Congresso Brasileiro de Nutricionistas no ano de 1996 em Belo Horizonte – MG o XIV Congresso Brasileiro de Nutrição – CONBRAN “FOME – Uma Visão Crítica e Ampliada”, disponibilizou no seu editorial o trecho do depoimento castreano sobre a descoberta da FOME
“A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife – Alagados Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite [...]lama dos mangues de recife, fervilhando de caranguejos e povoados de seres humanos feitos carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo. São seres anfíbios – habitantes as terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo este leite de lama, se faziam irmãos de leite de caranguejos”9
E desde os escritos em seu conto O Ciclo do Caranguejo Castro descreve:
Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo. Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive o homem e a lama que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive nela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez.10 11
No início do século XX, o cenário político no país apontava para as tentativas “científicas”, acadêmicas, capazes de empreender soluções para o enfrentamento do “atraso do país”; do como fazer prosperar o capitalismo industrial, a despeito das imperativas desigualdades sociais no país. O esforço do enfrentamento destas desigualdades estaria no devir da institucionalização do progresso industrial. Josué de Castro, então, e salvo engano, fervoroso desta perspectiva apostava na contribuição da “ciência” para alcançá-lo. Em paralelo, cientistas de diversas áreas acadêmicas se esforçavam para explicar e contribuir com o progresso econômico do país. Os escritos castreanos ambicionava ultrapassar as teses: físicas, climáticas e culturais para explicar o então atraso social e apresenta como categoria explicativa: A FOME. E pontua: “Não é mal da raça, nem do clima. É mal da fome. A fome tem sido através dos tempos, a peia que entrava sempre o pregresso latino-americano.”12. A condição de faminto, uma marca de inferioridade? Ainda segundo a tese castreana “... as chamadas “raças inferiores” são apenas raças famintas, capazes de se apresentar quando bem alimentadas, em igualdade de caracteres com as supostas “raças superiores”.13 No filme Cabra Marcado para Morrer, lançado em 1984, mas com filmagens iniciadas em 1962, o cineasta Eduardo Coutinho tematiza, em paralelo, contrariando, talvez, as teses castreanas, outra perspectiva imagética. As imagens fílmicas encenam multidões urbanas de povos das áreas rurais do nordeste brasileiro, em atividade política, numa estética que demarca o caráter lúcido das lideranças, do discernimento sobre a motivação das lutas empreendidas sob o nome de LIGAS CAMPONESAS. O cineasta Coutinho estaria contrário a tese da “politização” da categoria FOME explicativa das desigualdades sociais no Brasil? Sugeriríamos que sim, uma vez que as imagens montadas que encenam povos campesinos expõe um movimento de articulações políticas possuídas de um discurso claro, engajado em questões estruturais no acesso à terra e a propriedade rural. O livro: Sete Palmos de Terra e um Caixão e O Livro Negro da Fome, ambos castreano, cuja temática salvo engano, tece análises do movimento agrário das LIGAS CAMPONESAS nos insinua um paralelo dissonante, em relação com o registro das imagens e do conteúdo documental produzido no filme: Cabra Marcado para Morrer do cineasta Eduardo Coutinho. Este documentário se distancia da fala castreana citada a seguir:
“Fustigados pela imperiosa necessidade de alimentar-se, os instintos primários se exaltam e o homem, como qualquer animal esfomeado, apresenta uma conduta mental que pode parecer a mais desconcertante. Muda o seu comportamento como muda o de todos os seres vivos alcançando flagelo nesta mesma área geográfica.”.14
A estética cinematográfica captada no filme documentário Cabra Marcado para Morrer está longe de reduzir os trabalhadores rurais aos seus estômagos, ou sugerir que fosse tal aspecto do corpo humano a motriz para se acionar a atividade política campesina, - gente simples - sim, - analfabeta da leitura da palavra escrita - sim, mas em pleno funcionamento do estado sentir popular, orientado para a luta em questão. 15 Utilizando as formas de raciocinar na ordem social das desigualdades no acesso a terra, com destreza e pautado no sentido da organização campesina para lutar pelo direito a terra. O DIREITO A TERRA, que inicialmente se constituirá na bandeira de luta do sociólogo Herbert de Souza, popularmente - Betinho16, - Terra e Democracia, num dado momento sua opção de liderança acadêmica intelectual se volta para enunciar o “Combate a Fome”, liderando em meados dos anos de 1980 a plataforma política “Cidadania e Ação”, com a bandeira “A FOME TEM PRESSA”. Betinho se assume como o segundo Arauto d’A Fome Brasileira, e sacraliza por certo em seu desempenho um dado sentido cristão católico herdado desde Castro e vigorante ate os nossos dias. Atualiza o discurso castreano e reproduz por suposto o tom caritativo. Sobre a questão subjacente ao discurso d”A FOME, o Cabra Marcado para Morrer, tematiza a participação de lideranças das Ligas camponesas vinculadas com a religião cristã protestante tendo como o segmento mais citado a Igreja Assembleia de Deus. Quando a Igreja Católica protagoniza sua ação junto ao Movimento Agrário?
Pois vejamos, o jornal baiano ”A Tarde” de 30/08/2008 estampa as fotografias de pessoas negras/mestiças em três composições fotográficas de uma mulher mãe de quatro crianças; outra, de uma mãe com cindo filhos (estamos supondo a maternidade), e em uma terceira foto numa mesma reportagem, um Senhor, por certo, um trabalhador rural com um largo sorriso apontando para uma panela em um fogão a lenha. As imagens das pessoas em trajes deselegantes, sujos, crianças sem camisas, não estão agraciadas com as suas identidades pessoais e sociais; não há descrição de quem são estas pessoas17; elas estariam tão somente ilustrando a reportagem o tema d’A FOME, para compor uma homenagem prestada no Caderno Cultural do referido Jornal ao aniversário de um dos livros de Josué de Castro – Geografia da Fome. Também o filme documentário do conceituado cineasta brasileiro José Padilha retoma a temática d’a FOME literalmente na reprodução do pensamento castreana em seu filme documentário: GARAPA de 2009; ele, durante a montagem o cineasta elege trechos de passagens castreana. Após assistir ao filme em paralelo foi oportunizado o Seminário de Comunicação e Cultura, no espaço da PUC São Paulo, no mesmo ano de 2009. E ao submetermos um resumo e o mesmo não ter sido aceito pela comissão avaliadora, o colamos em várias páginas de conteúdos na internet que apresentavam o documentário: GARAPA18, isto como um desabafo, conforme mostrado a seguir, e ainda atual na pagina https://brasiliamaranhao.wordpress.com/2009/05/27/garapa-de-jose-padilha/
cora corinta macedo de oliveira
Me bata uma
“GARAPA”!. A fome brasileira atualizada no cinema.
Me bata
uma garapa ou me faça uma garapa é uma expressão utilizada para
desqualificar a alguém que nos chega com uma provocação barata;
como de sarcasmo. Ramon Andrade pela internet diz tratar-se de um
dito baiano que “… exprime um sentimento de um momento raivoso do
tipo não me enrole, ou…”. No lugar comum desta expressão
tentaremos alcançar uma critica sobre a veiculação cinematográfica
do documental produzido pelo cineasta José Padilha – GARAPA.
Assisti-lo nos tomou de assaltou o sentimento de raiva, misturado com
constrangimento; isto pelo feito de entendermos como invasivo o olhar
fotográfico aos corpos daqueles que pelas imagens projetadas nos
chegou como remanescentes de aldeias indígenas; roubados legalmente
no uso de terras brasileiras. Roubados e largados à própria sorte
como se somente eles e mais ninguém pudessem ter participação nos
roubos históricos estatais às populações indígenas e
quilombolas. E, nisto da câmara invasiva, questionaríamos o porquê
dela descansar a lente na nudez de uma criança do sexo masculino que
(a despeito do que Padilha enfatiza na pretensão documental – a
fome) parecia estar em plena forma de vitalidade física – subindo
e descendo os muros do casebre. Outro sentimento foi à satisfação
de pensar que a GARAPA, largamente batida pelos protagonistas do
documentário pudesse significar uma desdita a soberba do diretor
quando reduz toda a existência dos figurantes ao seu estomago. O
Diretor afirma seu discurso imagético GARAPA no arauto da descoberta
da fome no Brasil – Josué de Castro. Indagaríamos: existe alguma
leitura critica da produção acadêmica à fome castreana?19
20
Não obstante, o Couro de Gato, o curta-metragem lançado em 1960 do cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade nos premia com uma versão imagética que contextualiza a ordem filantrópica para a questão estomacal reduzida a condição de inanição, ao tempo em que afirma o caráter cognitivo21 da criança protagonista, quando problematiza um dado conceito “burguês” ao olhá-la. O curta revela uma direção espacial capaz de dignificar a pessoa humana na sua condição cognitiva, dos seus desejos e discernimentos na ação das suas relações. As cenas mostram o movimento citadino de crianças /garotos roubando os gatos para vendê-los a favor do comercio do couro dos gatos, usados para servir de vestimenta dos pandeiros (instrumento musical); recorta-se aqui o foco para uma criança; um garoto, com trajes simples tipo molambento, aparência desleixada, carregando seu material de trabalho como engraxate; a câmara focaliza-o, espreitando desde uma garagem semiaberta o interior de uma “casa rica”, e, lá dentro, à vista no jardim, - um gato ao lado de uma mulher de meia idade; a mulher ao notá-lo, numa gestualidade piedosa e complacente, o convida a entrar oferecendo-lhe de imediato o que comer e o que beber; o garoto aceita o copo de suco... por aceitar, e num lampejo de velocidade, larga o copo na mesa, indicando que o estômago não o levou ali, nem foi o motivo do seu interesse; e, agarrando o gato, partiu numa correria só, para o local aonde se comercializaria os gatos; o local da sua moradia...
1O texto que se segue foi escrito, sob outro titulo para submissão
2Não nos lembramos de haver escutá-la como uma metáfora: Fome de terra para plantar, Fome de comida bem temperada no prato, Fome de livros, Fome de escolas decentes, Fome de dinheiro no bolso para comprar comida, Fome de comida sem agrotóxicos, Fome de lápis coloridos em escolas de ensino fundamental para crianças, Fome de transporte escolar decente...
3 Estivemos, salvo engano, durante meses repetindo em diversas plataformas, esse questionamento...
4 Encher o estômago de água pode ser um truque para saciar a sensação de fome?
5O Curso universitário de Nutrição, até 1993 não existia em países europeus, a exemplo da Espanha e Portugal. No Brasil os Cursos de Nutrição tiveram como Patrono o nutrólogo Josué de Castro o arauto da “fome brasileira".
6 Tal inquietação foi empreendida a partir de sua primeira viagem a Europa em 1993, quando pensava realizar ali seu curso de pós-graduação. Levava consigo a máxima do “Combate a Fome” condicionada a formação de nutricionista no dever fazer mais e melhor para garantir a suplementação alimentar de “grupos vulneráveis”, destacando ai o fornecimento da “merenda escolar’; os estudos epidemiológicos apontavam a preocupação com a formação, no país, de uma raça de nanicos.. Qual nada! A altura dos europeus espanhóis com estaturas tal qual a dos nordestinos e sem ter o conceito de FOME presente; depois não havia ali formação em nutrição; com a alimentação ali a base de carne de porco, e de uma alimentação tradicional raiz começou a estranhar o discurso d’A FOME, desconfiando da sua gênese e uso.
7 Até final dos Governos Militares, não se tinha tão enfático a reprodução da palavra de ordem política esquerdista d’A Fome. É a partir da década de 1980 que sua retórica se inflama na mídia e nas lideranças do Curso de Nutrição. No paralelo de estudos epidemiológicos que geravam o pânico de termos no nordeste uma “geração de nanicos”. É neste momento quando alcançamos a máxima da popularização da descoberta d’A Fome Brasileira aos moldes castreano nos anos de 1930. E a voz do sociólogo Betinho inauguraria desde então a mais forte expressão no “Combate a Fome’, desde a máxima: A FOME tem pressa”.O “Combate a Fome” se tornaria a palavra de ordem política esquerdista, até os nossos dias. Combate uma palavra herdada do sentido militar, uma guerra.
8 Oliveira, C M. Os Arautos da Nutrição: Uma palavra em “merenda escolar”. Dissertação de Mestrado. Faced / UFBA. 1998.
9Qualquer cidade litorânea na Bahia, em particular, quando de uma visita as suas feiras livres se pode identificar logo na entrada as cordas de caranguejos postos a venda. Sempre povos negros que os comercializa. A cidade de Canavieiras no sul da Bahia ostenta como monumento um caranguejo gigante, e uma das atividades culturais na cidade é o Festival do Caranguejo.
11 Escutamos um depoimento de uma professora socióloga informando que, - quando leu tal descrição castreana, criou tanto nojo de comer as iguarias preparadas com tal crustáceo que somente depois de muito tempo voltou a apreciá-la e consumi-la.
12Castro, Josué. Geopolítica da Fome. Ensaio sobre os Problemas de Alimentação e de População do Mundo. Rio de Janeiro: Livraria da Casa do Estudante, 1952 pg. 109
13Castro, Josué. Geografia da Fome. Rio de Janeiro: Antares/Achiamé, 1960, pg. 95
14In Castro, Josué. O Livro Negro da Fome. São Paulo: Brasiliense, 1960, pg. 243
15 O mesmo não se poderia dizer da obra-prima Deus e o Diabo na Terra do Sol do cineasta baiano Glauber Rocha. Ele tematiza desde o Roteiro – o Manifesto A Estética da Fome, e, se, proposital, ou não, realiza uma leitura fidedigna do tom discursivo de Josué de Castro em suas duas obras O livro Negro da fome e Sete Palmos de terra e um caixão na perspectiva da relação entre violência e fome.
16 O sociólogo engajado nos movimentos sociais pelo direito a terra, teve uma formação religiosa católica
forte, sendo iniciado para cumprir o sacerdócio como padre católico. Mesmo fora desta perspectiva sempre esteve vinculado com a igreja católica.
17 Tampouco se supõe haver sinais relevantes físicos que indiquem diagnostico de desnutrição. Parece até dizer que se o filho do pobre é magrelo, está passando fome, o filho do rico magrelo é boa saúde.
18 Comentado sobre o filme Garapa, Cléber Eduardo o intitula como Falsa Denuncia e elege para expor em seu texto, três fotografias de recorte do conteúdo fílmico em cujas imagens estão marcados os traços físicos de gente indígena e em nada retrataria uma feiúra (como retrato da fome). file:///C:/Users/login/Downloads/Cin%C3%A9tica%20-%20comentando%20garapa.html
19 Outra página que ainda mantém (04/06/2023) tal comentário é: https://lella.wordpress.com/2009/10/28/garapa-sem-pastel/
20 O texto esta sem revisão do conteúdo. Que agora poderia estar escrito na forma a seguir: – “...como se somente eles, os grileiros estivem autorizados legalmente a se apropriarem das terras de populações indígenas e quilombolas. Em vez de: como se somente eles e mais ninguém pudessem ter participação nos roubos históricos estatais às populações indígenas e quilombolas.
21 Cognitivo significando discernimento, perspicácia, lucidez...
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